Gina Vieira: conheça a professora que luta contra bullying

Da vida difícil dos pais analfabetos, nasceu o sonho de ir para a escola e estudar. Do primeiro ano na escola, nasceu o medo, a tristeza de sofrer preconceito pela primeira vez por “culpa” da cor da pele. Do preconceito, nasceu a vergonha de se manifestar, de aparecer, o que fez com que ela não aprendesse a ler e escrever. Da falta de conhecimento, surgiu o colo de uma professora, que se esforçou para ensiná-la o que foi tirado pelo preconceito. Do colo da professora, abriu-se uma nova porta. Nasceu, então,  um novo mundo para a professora Gina Vieira Ponte de Albuquerque, 46 anos. Um mundo no qual ela iria crescer, estudar, se formar, criar um projeto vencedor de prêmios nacionais e internacionais e fazer o que ela faz de melhor: inspirar e realizar. “Ninguém faz ninguém feliz, a gente que se faz feliz”.

De sapatos de salto preto, calça preta, blusa colorida, paletó branco, colares e brincos, ela está pronta para contar mais uma vez a própria história. Dessa vez, em uma palestra no evento Mulheres de Cooperativas, em Brasília, em um pequeno auditório no Brasília Imperial Hotel, com cerca de 20, 25 pessoas. A organizadora do evento, e colega de Gina na época em que dava aula na Ceilândia, a apresenta com um pequeno relato: “Depois que o sinal tocava, determinando o início da aula, eu e ela éramos as primeiras a levantar, pegar nossas bolsas e ir para a sala de aula.” Ela tem um discurso orgulhoso sobre a amiga, mas que não revelarei imediatamente, já que ainda temos um caminho cheio de relatos emocionantes até o fim desta história.

“Esse moço bonito aí se chama Moisés”. O homem de pele branca, cabelo preto e traços afilados que aparece no primeiro slide da apresentação, é o pai de Gina. “Nasceu em Sobral, no Ceará, e por uma série de razões meu pai nunca aprendeu a ler e a escrever. Quando Juscelino Kubitschek chamou os nordestinos para vir construir a Capital, ele atendeu ao pedido. Vendeu um burrinho que ele tinha, que era o único bem que meu avô tinha pra dar para ele, botou o dinheiro do bicho numa mala e veio para a Capital”. Não demorou muito e caiu em um golpe. “Um homem não alfabetizado, numa cidade grande, com uma mala de dinheiro… Imagina se isso ia dar certo”.

O rosto que agora está estampado no telão da apresentação de Gina, é o de Djanira, a  mãe. Uma mulher negra, com expressão forte, de quem já passou por muita coisa na vida. E não é que passou mesmo? “Aos 5 anos de idade, a Dona Djanira ganhou uma enxada para capinar terra”, relata a filha que, na voz, deixa escapar o que imagina do sofrimento da mãe. “O sonho dela era frequentar a escola, mas na infância, o que apresentaram para ela foi o trabalho.”

Num dado momento, ela cansa daquela vida dura que tinha na roça e também vem para Brasília. Esse encontro improvável entre um homem branco, filho de um pequeno fazendeiro, com uma mulher negra, filha de agricultores, trouxe existência a essa família (ela mostra a foto que parece ser o quintal de casa), que é a minha família.” A grande família de Gina era composta pelos pais dela e mais cinco irmãos e irmãs. Dois já faleceram. A que veio antes dela e um dos que veio depois. Eles moravam em Ceilândia. A cidade foi fundada em 1971 e a Gina nasceu em 1972, a primeira nascida na cidade, que na época não tinha água encanada, nem rede elétrica e os barracos chegavam em caminhões.

Apesar de seus pais não terem tido acesso à educação (sua mãe estudou até a quarta série primária, mas não tinha curso superior), eles tinham uma narrativa sobre o que era a escola, que era muito poderosa, principalmente para seu pai. “Ele dizia para mim assim: ‘Minha filha, eu não sei ler, mas você vai para a escola, porque no dia em que você souber ler, você vence o mundo! Ninguém te segura, você ganha tudo se fizer o que você quiser!’ E ela, uma menina negra, ainda criança, pensava que quando entrasse na escola iria ganhar superpoderes. A ansiedade para ir logo para a escola era tanta, que quando lançaram a base, o alicerce de onde seria, Gina foi acompanhar a construção do lugar que ela imaginava ser colorido, um lugar onde haviam muitas brincadeira, que era muito divertido, onde ela seria muito feliz. Mas logo cedo, ela sofreu com a dura realidade de ser quem ela era, “uma menina magrinha, franzina, desnutrida, negra, que estava sempre com a roupa puída e com o sapato furado”, é como ela mesma se descreve na época em que, finalmente, entrou na escola.

“Eu entro na escola e descubro que é um lugar tão racista quanto qualquer outro”. É nesse momento que a imagem que ela tinha criado sobre aquele lugar cheio de cor, diversão e felicidade, desaparece. “Xingamentos, agressões, às vezes indiferença de alguns professores, às vezes baixas expectativas”, foram fatores que motivaram a pequena Gina a se esforçar muito para ter um poder que não era o que ela imaginava, que era ser invisível.

O poder adquirido até então não adiantava muito. Foram vários episódios de perseguição. Ela recorda da infância, nos primeiros anos na escola. Imagens se fundem na imprecisão do tempo.  Um dos momentos traumáticos que ela lembra, aconteceu quando ela voltava da escola para casa, quando estudava no Centro Educacional 7, da Ceilândia. “Um garoto veio me seguindo o percurso inteiro, me jogando pedra e me chamando de urso do cabelo duro, gratuitamente. Eu acho que eu não tinha feito absolutamente nada para ele”. Ela tem até uma explicação preparada para isso. “Quando você é criança, não tem elementos para elaborar isso” e as consequências disso, eram maiores nela, claro. “Eu acho que o impacto na auto-estima ainda é maior”

Uma foto dela de escola, retrata exatamente a criança que ela era: zangada, de cara fechada, triste, assustada… “Eu entrava muda, saia calada, sentava na última carteira e não fazia perguntas” e para uma criança é impossível aprender dessa maneira, sem fazer questionamentos, e Gina foi para a segunda série sem saber ler. Ela enganava a professora na hora que a leitura era tomada dos alunos. “Eu decorava e quando chegava a minha vez eu recitava para ela. Mas eu sabia que eu não sabia ler. A gente sempre sabe das nossas fragilidades.”

 

Então, com 8 anos, a pequena Gina vai para o seu segundo ano de escola sem saber o que estava prestes a acontecer. Ela conheceu a professora que mudaria a vida dela (“que a carregou no colo”). Na sala de aula da segunda série e se chamava Creusa Pereira dos Santos Lima e era outra que enxergava a Gina, apesar do esforço para ser invisível. “Ela me chamou até a carteira dele e eu falei ‘pronto, ela descobriu que não sei ler. Ela vai chamar meu pai e minha mãe, e vai me devolver para a primeira série.” Mas esse sentimento de medo, logo foi tomado por um outro, diferente de tudo que Gina havia passado dentro da escola.

 

“Para a minha surpresa, ela não queria me dar bronca, ela não queria me bater. Ela me colocou no colo. Mas não foi qualquer colo. Foi um colo que foi o primeiro grande marco da minha existência. Ela me colocou no colo e se esforçou para que aprendesse. Eu lembro que a primeira reação que eu tive foi de estranhamento. Aquilo foi tão poderoso. Primeiro, que eu me senti uma criança passiva de ser amada. Depois, eu me senti uma criança em condições de aprender.” A partir desse momento, a concepção dela sobre o que a escola representava, mudou. “Eu associei a escola a pertencimento, a acolhimento. Embora eu sofresse racismo, aquele primeiro amor que a professora Creusa me apresentou, era uma espécie de elemento que me motivava a continuar na escola, porque no fundo eu acreditava que, em algum momento, eu encontraria aquilo de novo.” Tanto carinho fez com que Gina se esforçasse muito nos estudos, “ela mandava fazer cinco, eu fazia dez. Eu precisava garantir que aquele carinho ia continuar chegando para mim.”

 

Quando aprendeu a ler e a escrever, Gina começou uma nova prática. As duas habilidades se tornaram algo muito prazeroso para a menina de 8 anos, mas na sua casa não tinham livros a não ser os três dicionários que a mãe comprou com muita dificuldade, e esses, Gina leu rápido. Então, ela passou a escrever diários. “Eu sentava todos os dias e anotava o que tinha acontecido comigo. Depois eu voltava e lia o que eu tinha escrito.” Segundo ela, isso foi muito poderoso porque acabou virando um espaço onde ela compartilhava o que ela sentia, as dores, as dificuldades que ela passava, os conflitos. “Até hoje a escrita é um processo terapêutico para mim.”

 

No lugar onde ela vivia, o destino das meninas negras já estava predestinado. Ou elas se envolviam na criminalidade, ou com traficantes, ou virariam trabalhadora doméstica, ou babá. Claro, que ela não via problema algum em ser trabalhadora doméstica e babá, mas a mãe, Dona Djanira, sonhava coisas maiores para ela. “Ela dizia: ‘Minha filha, eu não vou me sacrificar à toa, eu quero que você estude.’ E depois que encontrei a professora Creusa, eu disse para mim mesma que eu seria professora. Porque não deve haver na vida nada mais importante para fazer do que o que ela fez por mim.” Isso que Gina conta que a professora fez, mudou a forma como ela olhava para si mesma e deu a ela mais um sonho, o de seguir os estudos e se formar.

 

Com 17 anos, então, a Gina se formou professora no ano de 1989.O pai dela, humilde e guerreiro, Moisés, ficou tão orgulhoso, que fretou uma kombi para a família toda. Ela não sabe como ele conseguiu o automóvel, mas lembra que a família inteira foi para a formatura dela. “Eu comecei a dar aula me sentindo a pessoa mais importante do mundo.” A filha de Moisés e Djanira trabalhou durante oito anos com as séries iniciais e chegou o momento que ela quis trabalhar com as mais avançadas. “No meu primeiro dia de aula com os adolescentes, eu entro na sala para dar aula numa turma de 6º ano e eu vi uma cena que foi uma das mais chocantes que já vi”, relatou Gina.

 

“Entrei na sala de aula e tinha um menino pendurado na janela, tinha menino ‘quicando’ na carteira, tinha menino rolando no chão com o dedo enfiado no olho do outro, dando soco… E eu entrei e tentava dar aula. Eu dizia (calmamente) ‘meu filho, desça da janela. Meu amor, não pule na carteira…’ Me deixaram falando sozinha.”

Depressão

“Aquele foi o gatilho para um processo depressivo” e o tiro foi na mosca, bem no sonho dela. Diante da situação, Gina se viu incapaz de exercer a função que ela tanto desejava, que ela viu pela primeira vez com a professora Creusa. “Eu queria ser professora para fazer parte da história dos meus alunos e ajudá-los a escrever grandes histórias para a vida deles. Quando eu entro na sala e vejo jovens virando as costas para a escola, a sensação que eu tenho é de fracasso, de impotência.”

Isso aconteceu no ano de 2003. Ela já tinha 31 anos e ficou afastada da sala de aula por quase quase um ano. “Eu precisei tomar medicação psicotrópica, remédio tarja-preta, procurar psiquiatra, terapeuta… Cheguei a pesar, na época, 37 quilos, porque eu não comia, eu não dormia, eu não sentia prazer em absolutamente nada. Porque a depressão não é tristeza. É muito pior. É falta de prazer, satisfação e de sentido.” E no meio disso tudo, no meio do tratamento da doença, no meio de outubro, aconteceu uma coisa que a quebrou no meio.

“Eu estava em casa, de licença médica, muito próxima da minha mãe porque ela não trabalhava, ela era aposentada e nós saímos para comprar um colchão para a cama dela, que ela tinha acabado de encomendar uma cama para o marceneiro.” Do lado uma da outra elas foram andando até a loja onde iriam comprar o colchão. Em um determinado momento os passos da mãe foram desacelerando. Direita, esquerda… Direita, esquerda… Direita… Ela parou e falou “minha filha, eu preciso ir ao banheiro agora! Porque se não vou fazer coco na roupa.” A reação de Gina foi achar aquilo muito estranho. “Xixi é difícil de segurar, mas o número dois a gente segura bem”, pensou ela.

“Eu perdi a minha avó com câncer de estômago, uma tia já tinha tido a mesma doença, então tem um histórico na minha família”, Gina ficou com essa pulga atrás da orelha e decidiu ir a um médico. Quando vieram os resultados, veio a certeza do que ela suspeitava. O diagnóstico foi de adenocarcinoma gástrico, um câncer de estômago em um estágio já avançado. “Eu estava tentando me levantar, quando recebo essa pancada”. Agora ela fala diretamente comigo, se abre de forma pura e sincera. “Eu juro para você… Eu quase enlouqueci, porque eu descobri que ela estava doente, eu tive que dar a notícia.”

Elas foram em dois médicos. Um tinha a informação de que Djanira não tinha nem 15 dias a mais de vida. O outro dizia que, se ela operasse, ela ficaria boa. “Esse segundo médico, era o que acompanhava a minha mãe há 7 anos, porque ela tinha Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) e de 3 em 3 meses a gente tinha que ir nele para monitorar, fazer exames. Então, acabamos (ela e os irmãos) ficando com o parecer dele.” Djanira fez a cirurgia de remoção do tumor. Mas o médico errou na previsão quando disse que ela ficaria boa depois de operar. Antes de voltar para casa, ainda no pós-operatório, ela teve pancreatite. Ela convivia há 7 anos com o lúpus, acabará de operar um câncer, mas foi uma inflamação no pâncreas que causou seu falecimento.

Quase no fim do tratamento da depressão, então, Gina perdeu a mãe. “Eu surtei. Eu, literalmente, enlouqueci. Fiquei muito mal. Foi um susto”. Três anos antes ela tinha perdido seu pai. Moisés viveu até os 52 e a Djanira até os 66. A licença médica de Gina chegava ao fim e com todas as coisas que aconteceram, com “a maior perda” de sua vida, ela teve que fazer da fraqueza, a força. “A Secretaria de Educação não entendia que não tinha condições de eu voltar a trabalhar”. Ela foi obrigada a voltar ao trabalho. “Eu estava dilacerada pela morte dela e eles dizendo ‘mas tem quase um ano que você está de licença’ e eu pensava: ‘Tudo que eu construí de tratamento da minha depressão foi por água abaixo com esse novo acontecimento!’.” Ela voltou a dar aula mesmo com toda a dor que sentia no peito, mesmo com um pedaço faltando. “Eu sentia que não estava pisando no chão. Ainda estava a base de medicação e tive que fazer uma força descomunal para voltar a trabalhar.” Ela chegou a pensar em desistir do seu sonho de ser professora. Mas recebeu uma visita da pequena Gina. Aquela de 8 anos que ainda vive dentro da Gina mais velha, que sentou no colo da professora Creusa. “Ela disse para mim, ‘mas foi tão importante para você ser professora, você vai desistir na primeira dificuldade?’ E aí no lugar de desistir, eu fui estudar mais”, contou.

 

Gina começou a se perguntar por que os jovens odeiam a escola, por que eles querem tanto sair dela e ela diz que, nas pesquisas e análises feitas por ela, “o jovem vira as costas para a escola, porque primeiro a escola vira as costas para ele.” Uma das ideias elaboradas por ela é que a geração de hoje é a geração nativa digital, que já nasce sabendo mexer no touchscreen e que, quando essa geração vai para a escola, no momento em que a criança ou o adolescente passa pelo portão da escola, é como se dissessem para eles: “Bem-vindo à máquina do tempo. Você acaba de voltar para o século 17.” A escola espera que o(a) aluno(a) fique quieto, sentado na carteira, quando o que eles mais querem é voltar para casa e para o mundo tecnológico. “Não é que estudar tem que ser prazeroso”, explica Gina. “Estudar é penoso também. O problema é que a gente está transformando estudar em tortura, em sofrimento.”

 

Foi aí que ela buscou observar o que os alunos falavam, o que os interessava, do que eles gostavam, pois ela queria fazer algo que mudasse essa postura dos jovens na escola e sabia que a mudança tinha que partir dela, do trabalho dela. E a resposta que ela ouviu não poderia ter sido outra: redes sociais. “Criei uma conta no Orkut (rede social popular da época, entre os anos de 2009 e 2011). Nem sabia para que lado ia, mas criei mesmo assim, porque eu queria saber que negócio era aquele.” Ela utilizava da rede social como ferramenta de comunicação com os alunos, para dar feedback de textos e entre outros trabalhos em sala. Mas não demorou muito, surgiu o Facebook e todos que amavam o Orkut migraram para a rede social do americano Mark Zuckerberg.

Desprincesamento

E mais uma vez, Gina descobriu que causou nela um desconforto misturado com certa indignação. “Descobri que esse comportamento tem nome, chama-se ‘sexting’ e está relacionado a essa prática cada vez mais recorrente, não só nos adolescentes, mas nos adultos também.” E refletindo sobre esses comportamentos, ela percebeu que as meninas fazem isso, porque a sociedade ensina a elas. Gina explica: “Sabe onde isso começa? No conto de fadas. Os ingênuos contos de fadas são muito importantes para as meninas. Eles ensinam que a coisa mais importante que elas podem fazer na vida é ser escolhida por um homem para casar.” Segundo ela, as princesas não têm protagonismo nenhum, só sofrem e ainda rivalizam com outras mulheres para ter atenção dos homens.

 

 

“A Branca de Neve briga com a madrasta, porque as duas querem atenção, querem ser as mais belas diante do príncipe. A Cinderela briga com as irmãs, porque querem ir para o baile para ser escolhida pelo príncipe. Além disso, a vida dessas princesas não tem sentido, não tem um propósito. O sentido da vida da princesa é ser escolhida pelo príncipe.” Para ela, a mensagem que esses filmes passam é que “você (menina/mulher) por si só não tem valor. Você só tem valor com um homem do seu lado e para ter um homem do lado é preciso sensualizar, violentar o corpo para caber dentro do padrão que o homem espera.” Claro, que não tem problema algum em ser bonita, gostosa e sensual, o problema, segundo Gina, “é quando a cultura diz que esse é o único valor que você tem, porque as nossas meninas acreditam nisso.”

 

“Você olha e vê uma mulher tão plena, tão feliz, tão encontrada em si mesma, e ela não depende que um homem a faça feliz. Ninguém faz ninguém feliz, a gente que se faz feliz”, ressalta Gina, que ainda aponta a necessidade da menina/mulher encontrar um objetivo de vida. “A gente constrói o nosso projeto de vida e as mulheres ficam tão absolutas naquilo que estão fazendo, que ela faz bem feito, ela se torna referência, se torna uma grande pesquisadora e aí é possível olhar para ela e dizer ‘é possível ser feliz assumindo um projeto de vida, assumindo outras responsabilidades identitárias.”

 

“Eu comecei por uma coisa que eu gosto muito, que é a leitura.” Apaixonada pelo ato de ler desde quando aprendeu, ela propôs que lessem obras de autoria feminina, como “O Diário de Anne Frank”, “Eu Sou Malala”, “O Quarto de Despejo” e três obras de uma grande escritora daqui de Brasília, Cristiane Sobral. Em seguida, propôs que estudassem a biografias de mulheres como Carolina Maria de Jesus, que no lugar de mulher negra, favelada, semi-alfabetizada, escreveu seu nome na história da literatura brasileira e deu voz a quem nunca era ouvido: os favelados; Irena Sendler, que salvou 2.500 crianças judias do extermínio nazista; Malala, jovem paquistanesa que, por defender o direito das meninas frequentarem a escola, sofreu um atentado terrorista, levou um tiro e sobreviveu por milagre; Maria da Penha; Nise da Silveira, uma das primeiras mulheres a cursar medicina; e mulheres da sua própria comunidade, como a professora Creusa, que se reencontrou com a Gina 34 anos depois.

 

Seguindo o projeto, Gina e seus alunos fizeram uma campanha pela redes sociais. Eles fizeram um trabalho com a Lei Maria da Penha, conscientizando os alunos sobre a Lei, confeccionaram cartazes com dizeres como “nós dizemos não (destacado em vermelho) a qualquer forma de violência (também destacado) contra a mulher (destacado)”, chamou a comunidade para tirar foto os segurando e publicou nas redes sociais. Depois, eles montaram a Primeira Amostra de Vídeo sobre o Uso Consciente Seguro e Ético das Redes Sociais, onde os alunos produziram vídeos que seriam reproduzidos para os alunos mais novos, para ensiná-los a maneira mais correta de usar as redes sociais.

 

Na última etapa do projeto, então, a professora Gina disse aos alunos: “Vocês conheceram mulheres inspiradoras do mundo, do Brasil e da nossa comunidade. Então, qual é a mulher inspiradora da vida de vocês?” Com essa pergunta, ela conta que seu objetivo era “trabalhar a produção de texto. Eles iriam a campo escolher uma mulher inspiradora, entrevistá-la, gravar a entrevista e transformá-la em um texto” e segundo ela, essa foi a parte mais surpreendente do projeto. “Eles me falava assim: ‘Nossa, professora! Agora que você me falou dessas mulheres, eu só posso dar esse título de mulher inspiradora para a minha mãe, para a minha avó ou para a minha bisavó’.”

 

Foi quando Gina percebeu mais uma coisa. Os alunos eram de uma geração que não conversa muito com os pais e familiares para saber sobre a história deles. Quando eles voltavam das entrevistas, eles estavam diferentes, conta a professora. “Eles voltavam com o olho brilhando, o peito estufado, falando ‘professora, a minha mãe é muito mais inspiradora do que pensava!’” De um ela ouviu “descobri que quando a minha mãe era criança, lá na roça, tiraram ela da escola para ajudar a cuidar dos irmãos e ela foi trabalhar como quebradeira de côco. Chegou em Brasília com uma mão na frente e a outra atrás e hoje é empresária” e outra aluna disse: “A minha bisavó ficou viúva com 10 filhos para criar. Trabalhou anos costurando, na máquina de costura, e não perdeu nenhum filho.”

 

Depois da produção de texto, Gina começou a ler cada e foi achando tudo tão maravilhoso, tão rico, tão “precioso”, como ela mesma descreveu, que ela decidiu transformar tudo aquilo em um livro e nesse livro ela deixou registrado para sempre as histórias de todas as mulheres inspiradoras para cada aluno. Deu visibilidade a elas para valorizar a realização feminina e dizer “que é possível ser mulher de outras formas”. Chegou o fim do projeto, mas Gina não imaginava que, na verdade, ele estava só começando.

 

Começaram a vir os resultados do projeto Mulheres Inspiradoras e alguns surpreenderam a professora. “Um deles foi ouvir das mães o quanto o projeto provocou uma reaproximação delas com os filhos. Os meninos me diziam que quando eles chegavam com a carta, porque a gente preparou uma carta bem bonita dizendo ‘você foi escolhida para ser entrevistada, porque você é uma mulher inspiradora’, eles diziam que as mães não acreditavam ser mulher inspiradora.” Foi importante para que elas soubessem a função delas no mundo.

 

A campanha que foi feita nas redes sociais, ganhou uma visibilidade imensa. Alguém viu a movimentação feita pela turma e sugeriu que a Gina inscrevesse o projeto no 4º Prêmio Nacional de Educação e Direitos Humanos. “A gente concorreu com 600 projetos no Brasil inteiro e para a nossa surpresa, nós conquistamos o primeiro lugar”, lembra ela, cheia de orgulho com o primeiro prêmio conquistado. “Levamos para a escola um troféu bonito e R$ 15 mil”.

 

Ela achava que já tinha ido longe demais ganhando esse prêmio. Mas logo depois veio o 8º Prêmio Professores do Brasil, no qual o projeto foi escolhido como a Melhor Experiência Pedagógica do Centro Oeste, que levou a professora a São Paulo para concorrer com outros da mesma profissão. Em seguida veio o Prêmio Extra de Melhor Experiência Pedagógica do país, o 10º Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero (não perca as contas, até agora são quatro prêmios, no total)… E no dia 29 de maio de 2015, uma surpresa no jornal Correio Braziliense. “A gente abre o jornal e tem uma matéria informando que o projeto tinha sido escolhido pelo Ministério da Educação para representar o Brasil em um prêmio internacional.” Sim, a Gina iria para Lima, no Peru, com tudo pago pelo MEC para representar o Brasil em um prêmio.

Em seguida, o projeto cresceu ainda mais. “Eu apresentei o projeto em um evento chamado Brasília, Cidade Internacional e tinha um cara que fez perguntas super-complexas, no final me deu seu cartão e pediu para que eu o mandasse tudo o que tinha sobre o projeto.” Assim Gina o fez, mas achava que o figurão estava apenas interessado em saber mais sobre o projeto. Novamente, ela estava enganada e se surpreendeu. “Ele era um executivo representante da CAF, um banco com sede na Colômbia, de desenvolvimento social e ela falou que tinha levantado dinheiro para que o projeto chegasse em mais escolas”. Esse grande empurrãozinho fez com que, desde o ano passado, o projeto fosse transformado em programa de governo. “Chegamos a mais de 15 escolas públicas no Distrito Federal, já atingimos mais de 3 mil estudantes, distribuímos mais de 1560 obras de literatura de autoria feminina e, esse ano, com o projeto se fortalecendo como política pública, vamos chegar a mais 15 escolas.” O raio de atuação do projeto aumentou e Gina foi sendo cada vez mais reconhecida por seu trabalho.

 

Um projeto que começou da vontade dela de entender o motivo dos alunos estarem desmotivados a estudar, passou por uma descoberta acerca do que acontecia com o uso das redes sociais, tornou-se uma ação de conscientização e aprendizado dentro de sala de aula e saiu de Ceilândia, ganhou o mundo primeiro para depois ganhar o resto de Brasília e do Brasil. Ela analisa o crescimento do projeto. “Eu acho que o que conta é que ele não é um simulacro. É um projeto que tem muita verdade, que acumula quase 30 anos de uma caminhada. Tem muito sangue, suor e lágrima.

As coisas no lugar

“Pode parecer loucura, mas eu sou muito grata pela depressão ter vindo, porque ela foi o caminho para eu me ressignificar, me reinventar e rever a minha vida inteira, porque eu observei que tinham questões na minha profissão, mas na terapia, eu pude olhar para a minha vida e tentar colocar várias coisas no lugar.” Ela deixa um recado para aquelas pessoas que estão passando pela mesma coisa que ela passou: “Quando ela (a doença) vem, você precisa ter força para fazer essa travessia, porque certamente, depois da depressão, alguma coisa muito boa vai acontecer na sua vida. É preciso ter coragem de passar pela tempestade para você ver o que vai acontecer no dia seguinte.”

Todos que conhecem esta mulher, que têm o prazer de ouvir a sua história e suas ideias ficam completamente embasbacados com o que ela representa. Fazem questão de cumprimentá-la e dizer: “Que inspirador!” Quando sua palestra acaba, por exemplo, a vontade de contida, presa dentro de cada um que presencia o momento, finalmente é libertada quando no final ela diz: “Obrigada.” Instantaneamente todos se levantam para aplaudir essa mulher inspirada por tantas outras mulheres e que, agora, cumpre o papel de ser fonte de inspiração para tantas outras, porque outra coisa que ela ouve do público de suas palestras é: “Você que é a mulher inspiradora!”

Por Amanda Gil (texto)

Matéria de rádio: Karina Berardo, Mariana Fraga e Paula Beatriz

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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