Mulheres relatam dificuldades emocionais após o parto

Assim eu vejo a vida “A vida tem duas faces Positiva e negativa O passado foi duro mais deixou seu legado Saber viver é a grande sabedoria Que eu possa dignificar Minha condição de mulher, Aceitar suas limitações, E me fazer pedra de segurança dos valores que vão desmoronando. Nasci em tempos rudes Aceitei contradições lutas e pedras como lições de vida e delas me sirvo Aprendi a viver” Cora Coralina

Imagem Ilustrativa - Intenet

Eu tava em uma fase da minha vida que não cabia filhos, quase me formando em artes cênicas, com sonhos de viajar, aquele rolê quando a gente tem vinte anos, e eu tava querendo cuidar de mim, não cuidar de alguém”.

A gravidez quando não planejada e desejada pode acarretar a depressão pós-parto, assim como ocorreu com a atriz e produtora cultural Luciana Lobato quando teve sua primeira filha Clara, aos 23 anos.

A atriz não trabalhava e estava com o foco no final da faculdade e início de sua carreira profissional. Cheia de sonhos, Luciana conta que quando descobriu que estava grávida foi um momento desesperador.

“Sabe quando você não quer acreditar naquilo? A sua vida muda totalmente, aí eu entrei em um estado que eu só conseguia chorar e pensar nisso, no que seria da minha vida, porque você pensa que sua vida acabou”.

Após um ano do nascimento da primeira filha, Clara, Luciana e seu marido separaram-se devido alguns problemas de família, e lembra que após o término não conseguia parar de chorar.

“Quando a Clara nasceu eu só chorava, na época eu acabei participando de uma matéria para Rede globo sobre o dia das mães e logo após o parto a equipe veio até meu quarto e me perguntou como eu estava me sentindo por ser mãe, e eu não consegui responder”.

Hoje, a atriz é mãe de duas meninas, e conta que até pensou em abortar, mas devido à falta de apoio desistiu e afirma que mesmo não sendo contra, acredita que a melhor escolha foi não ter abortado e mesmo sabendo que tinha algo errado por estar tão triste sentia que se contasse para a família ia estar sendo menos mãe e seria incompreendida.

Depressão Pós-Parto

Desânimo, irritabilidade, baixa autoestima, desinteresse pelo filho e pela vida. Esses são alguns dos sintomas da depressão pós-parto (DPP), doença que, segundo a Organização mundial da saúde (OMS), afeta quase 20% das mulheres no mundo. Já no Brasil, uma pesquisa feita pela fundação Oswaldo Cruz mostra que a doença atinge 26,3% das mães, sendo as estatísticas nacionais maiores que as registradas na Europa, Estados Unidos e Austrália.

A tristeza profunda é uma das maiores características, assim como a alteração no sono, sentimento de culpa e pensamentos suicidas. Das mães que apresentaram os sintomas de depressão, 20,5% estavam na primeira gestação, 30,6 % na segunda e 39,6% na terceira gestação, caso que ocorreu com Claudia de Jesus Queiroz, de 52 anos residente de Imperatriz/MA que desencadeou os sintomas da doença dois meses após o terceiro parto.

“Logo que eu tive a Amanda, comecei a me sentir mal, comecei a ficar apavorada, agoniada, e quando chegava à noite eu não comia, não queria sair da cama, fiquei isolada, só chorava, não queria mais ficar com o meu bebê. É a pior coisa do mundo, é uma sensação terrível”.

Quando descobriu que estava com depressão pós-parto a corretora de imóveis nem sabia o que era depressão e logo quando começou a sentir os sintomas, foi a um cardiologista e a um neurologista, acreditando que estava com pressão alta.

“A pessoa quando está com depressão ela chora muito, é assim, um choro da alma, é uma coisa muito forte”.

“A gente pensa que vai morrer do coração, depois pensa que tem tumor na cabeça… parece que a gente vai ouvindo sugestões na mente da gente, parece que a gente ouve vozes na nossa cabeça”.

Após fazer diversos exames, Claudia foi diagnosticada pelo neurologista com a DPP. Para que o diagnóstico ocorra, as alterações devem persistir por, no mínimo, duas semanas com os mesmos sintomas. O instrumento utilizado pelos especialistas é a escala de Edimburgo, um quadro com perguntas onde a pontuação indica ou não a doença.

“Quando eu ia dormir, eu tinha assim a sensação que tinha um raio em cima de mim. A gente sente tanta coisa, cria tanta coisa na nossa mente. Os sintomas da depressão são muito fortes, por isso que tem gente que se suicida”.

Claudia teve muito suporte de sua família e amigos durante esse período e sente que sem eles não teria conseguido superar a doença e afirma que a família foi quem te deu forças e que sem eles não sabe se teria conseguido.

Baby Blues

De acordo com um estudo publicado em 2009 no The Journal of Perinatal Education, as mulheres não procuram auxílio quando passam pela DPP, pois se sentem frustradas, incapazes e com medo. Segundo a professora universitária e pesquisadora de Depressão pós-parto, Flávia Arante, o índice no Brasil é em torno de 20% a 25% das mulheres. Isso, porém, não significa que 25% das mulheres que tiveram filhos serão tratadas.

A busca por tratamento é muito menor do que o número de mulheres acometidas com depressão. “Elas não buscam tratamento por diversos motivos, medo, vergonha, medo de se sentirem menos mães, de serem julgadas como mulheres mais fracas ou que não merecem ser mães”, relata a pesquisadora.

A depressão na maternidade ocorre normalmente durante o puerpério, período que decorre desde o nascimento do bebê até que os órgãos genitais da mulher voltem às condições anteriores a gestação, podendo durar até seis meses após o parto.

A própria pesquisadora, Flávia Arante de 32 anos teve, após seu primeiro parto, a melancolia puerperal, conhecida por baby blues. Os sintomas do baby blues são parecidos com os da DPP, porém, dificilmente atrapalham o vínculo entre a mãe e a criança e normalmente ocorre na semana seguinte ao parto,

“Eu sofri preconceito só por ter estudado o assunto, então quando eu conversava das dificuldades nesse período, já causava um estranhamento, as pessoas falavam que era frescura”.

“Foi muito difícil, li muito na época para poder me informar. O mais complicado é perder a identidade, você deixa de ser uma pessoa para ser só mãe em tempo integral e sem descanso”.

A depressão pós-parto atinge 26% dos lares brasileiros, contudo, ainda existe muito preconceito em relação à doença. Para Flávia, um grande problema é a falta de discussão sobre o assunto na sociedade, a falta de informação.

“É uma doença que não se fala, não se comenta. A maternidade é muito romantizada, então não se discute as dificuldades do puerpério com a mãe, não se explica do cansaço, das psicoses, nada, só se fala do quanto é bom ter filho, mas não de quanto é difícil”.

Hormônios à flor da pele

A enfermeira obstetra Priscila Ariel Medeiros explica os efeitos hormonais que ocorrem no corpo da mulher durante a gestação.

“Na gestação temos o estrógeno e a progesterona como hormônios com a maior participação nas alterações gravídicas, sendo que a progesterona é encontrada em altíssimos níveis […] A ocitocina durante o trabalho de parto favorece o vínculo da mãe com o bebê e reduz a possibilidade da DPP”.

A prolactina presente em toda a gestação, mas principalmente no pós-parto, também é responsável por dar prazer à mãe que amamenta e fazê-la amar e proteger o filho, por mais que esse tenha alterado toda a sua rotina. Assim que a placenta nasce, a progesterona cai abruptamente, porém, os fatores ambientais são decisivos para o desenvolvimento da DPP.

Ela reforça que se não percebida pela família ou por profissionais da saúde, a depressão pós-parto pode levar à psicose puerperal. “A psicose pode ser muito trágica, favorecendo suicídio, infanticídio, abandono do bebê, maus tratos ao recém-nascido e predispondo a mãe a outros transtornos psiquiátricos crônicos”.

Psicose

A psicose puerperal ocorreu com a costureira Suzana Martins, após sua quarta gestação e conta que a depressão pós-parto não é uma coisa que acontece da noite para o dia.

“Eu já vinha sobrecarregada há muitos anos, de angústias, de faltas. O primeiro filho é muito amado, era esperado, o segundo, ele vem assim para desempatar, no terceiro a pessoa já é outra pessoa, a pessoa vai assim, se perdendo dentro de si mesma, então o quarto filho para mim foi o fundo do poço”.

A costureira Suzana conta que já se sentia desestruturada psicologicamente e que durante a gestação teve muita demanda de costura e não conseguia dizer não para o trabalho. Assim, aceitava todas as encomendas, mesmo sem estrutura então quando teve a sua quarta filha, Kelly, Suzana sentiu-se totalmente fraca.

“Quando eu trouxe a Kelly para casa eu tive uma fraqueza total, a minha vontade era de matar a Kelly, matar meu marido e me matar,Eu pensava que fazendo isso eu ia eliminar o problema, achava que eu estaria eliminando o motivo de estar me sentindo assim”.

Após passar por diversas religiões em busca de ajuda, Suzana buscou um psiquiatra que a medicou e, com o tempo, ela começou a se sentir melhor.

“Meu marido me levou em várias religiões, que me ajudaram muito também, que cada uma da sua maneira me ajudou, até que fui a um psiquiatra que me passou uns remédios e aí aos pouquinhos foi me ajudando”.

Segundo a psicóloga Roberta Petterle, não é possível prever se uma mulher terá ou não depressão pós-parto, mas existem formas de prepará-la para ter o bebê. Roberta reforça que o tratamento envolve toda a família, o apoio e ajuda de amigos e familiares faz toda a diferença no período durante e pós-gestação.

“Com certeza uma boa rede de apoio, ajuda de familiares e amigos nos cuidados do bebê auxiliam a mulher a descansar, ter tempo para se cuidar, fazer exercícios físicos, se alimentar corretamente, como também fazer terapia com um psicólogo especialista  em puerpério”.

Por Mariana Mattos.

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