Seminário discute novas práticas ambientais no trabalho

“O relacionamento da humanidade com o planeta está em crise. Os dois estão doentes e, para o bem da humanidade, esta relação tem que ser repensada. Essa relação é como um casamento natural, que não pode ser desfeito, porque nós, humanos, também somos natureza”. Com esta afirmação, o físico, escritor e educador ambiental José Silva Quintas deu início à sua palestra no I Seminário de Educação Ambiental do Trabalhador: da concepção pedagógica à prática ambiental, realizada em 4 de junho, no auditório do Instituto Federal de Brasília (IFB).

O Seminário foi promovido pela Corumbá Concessões, gestora da UHE Corumbá IV, e contou com a participação do presidente da empresa, Marcelo Siqueira Mendes, e colaboradores; do prefeito e do secretário de Meio Ambiente de Alexânia, respectivamente, Allysson da Silva Lima e Alexandre Morais.  O objetivo do seminário foi repensar a prática do trabalho com reflexões a partir da conexão entre o que as pessoas realizam na empresa, visando devolver à sociedade uma prestação de serviço com qualidade e responsabilidade social.

O planeta está doente

José Silva Quintas apresentou dados nacionais e mundiais dos impactos e acidentes ambientais e sugeriu soluções práticas de cidadania, individuais e coletivas. “O homem foi à Lua e já faz monitoramento em Marte, mas não consegue acabar com a fome”, disse o palestrante que, em seguida citou alguns números: 80% da população mundial não dispõem de assistência social; 1 bilhão de pessoas passa fome; 768 milhões não têm acesso a fontes de energia confiáveis; e apenas 1% da população mundial possui riqueza correspondente aos demais 99%. “Um mundo extremamente desigual é um perigo para todos”, completou.

Quintas, que é uma das maiores referências em educação ambiental no Brasil, incentiva as pessoas a trabalharem ativamente por uma mudança de comportamento ambiental, a partir de ações individuais que possam refletir no coletivo – na empresa onde trabalham e na comunidade onde moram. Ele citou que a Constituição Federal garante a todos o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, mas não dá meios para fazer isso. “A proteção e a defesa do meio ambiente são deveres do Estado e do coletivo, e estão interligados a todos os setores (saúde, saneamento, energia, alimentação etc.), frisou.

Segundo Quintas, no Brasil há leis muito boas, uma constituição cidadã, “mas lei sozinha não faz as coisas funcionarem”. Por isso, ele entende que a educação ambiental tem que trabalhar na perspectiva da cidadania, pois os problemas ambientais são de grande escala e intensidade e exigem ação do coletivo. “O individual é importante e a gente faz por obrigação, como economizar água na nossa casa. Mas temos também que buscar informações, juntamente com outros moradores, sobre as decisões do Comitê de Bacia. Nós separamos o lixo, mas temos que checar na administração do nosso bairro se há coleta seletiva e como é feita a destinação do lixo”, exemplificou. Para Quintas, a palavra de ordem é “cidadania”.

O presidente da Corumbá Concessões, Marcelo Mendes, avaliou como positivo o debate. “Além da excelente referência técnica dos palestrantes, o seminário estimulou muitas reflexões aos participantes. Com certeza, todos nós passaremos a ter uma nova visão da questão ambiental e a adotar novos hábitos na empresa e em nossas casas”, disse.

Prática da cidadania

A segunda palestrante do seminário foi Eliana Feitosa, doutoranda em Geografia pela Universidade de Brasília (UnB) e consultora na perspectiva de soluções ambientais para a crise hídrica, energia e resíduos sólidos. Ela desenvolveu uma atividade interativa com os participantes, estimulando avaliações sobre as práticas dos mesmos em suas casas e na empresa. Wesley Cabral, que trabalha na área de contabilidade na Corumbá Concessões, citou a sua experiência diária em casa e o seu jeito de “ensinar” ao pai, de 70 anos, sobre a importância de a família separar o lixo, reciclar resíduos e reaproveitar água da máquina de lavar e do banho.

Para a analista ambiental Marinez de Castro, as mudanças de hábitos ainda estão no começo. “Já podemos ver muitas pessoas sensibilizadas para a questão do meio ambiente. Há vários anos eu faço a separação de resíduos secos e orgânicos e não consigo mais misturar o lixo”, disse. Eliana comentou sobre a prática: “Esse é o resultado da educação ambiental que leva a pessoa a não conseguir mais fazer diferente. Se não houver essa mudança de comportamento, nós vamos ficar a vida inteira na teoria”, pontuou.

“O seminário foi de extrema importância porque tivemos como pano de fundo o processo de educação na gestão ambiental, com sensibilização dos presentes no sentido de que a ação individual influencia no resultado inteiro. E trabalhar pelo meio ambiente é garantir a sobrevivência das futuras gerações”, avaliou o prefeito de Alexânia, Allysson Lima. Ele contou que a sua contribuição pessoal para economizar energia foi passar a tomar banho frio, desde 2001, prática que influenciou seu irmão. “Na prefeitura, adotamos pequenas ações como cada servidor usar o mesmo copo para beber água durante o dia, utilizar os dois lados do papel nas impressões e economizar energia”, exemplificou. Allysson citou, também, como iniciativas maiores da prefeitura a elaboração do Plano de Saneamento Ambiental e envolvimento em projetos de construção de barraginhas nas propriedades rurais.

Eliana Feitosa destacou algumas ações que podem ser adotadas nas empresas, que podem interferir diretamente na saúde empresarial e na manutenção, inclusive dos empregos, quando são bem gerenciadas. Ela sugeriu que diretores e funcionários podem incluir na pauta boas práticas de conduta ambiental, estimular que suas equipes reutilizem, deixem de utilizar, reorganizem e tragam novas soluções ambientais para o grupo, como por exemplo, evitar as impressões e promover a reutilização de papel, sempre que possível.

A Corumbá Concessões já adotou, há alguns anos, a prática da seleção de lixo e, após o seminário, o departamento de Meio Ambiente da empresa vai iniciar outras ações como minhocário e utilização de borra de café para usar como fertilizante na horta. “O ser humano só cuida do que ama e ações como estas transformam o cotidiano e auxiliam também na identidade sócio ambiental da empresa”, afirmou a professora.

O engenheiro Marcelo Tenaz, diretor da empresa RadarBrasil Ambiental, contratada pela Corumbá Concessões para executar os projetos socioambientais nos municípios do entorno do reservatório, falou sobre o uso de geração própria de energia na empresa. Ele contou que para comemorar os 15 anos da empresa, no ano passado, inaugurou na sede uma usina fotovoltaica para geração de energia elétrica, com geração de 3.500 kwh/mês. A iniciativa faz da Radar a primeira empresa da área ambiental do Distrito Federal a utilizar a fonte fotovoltaica para a geração de toda a energia que consome.

A produção de energia da empresa, segundo Tenaz, não gera emissão de carbono e nem resíduos em sua operação. Os 120 painéis solares instalados em uma área de 200m² têm um impacto equivalente a 5.508 árvores plantadas e durante 25 anos, tempo de vida útil das placas.  “Somos autossuficientes e ainda distribuímos energia para outras duas unidades, tornando-as, também, autossuficientes”, disse.

Ana Guaranys

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