Trabalhadores lamentam aumento inferior a 1% no salário mínimo; entenda como sobrevivem

Evolução do salário mínimo no Brasil

A auxiliar de serviços gerais Benedita Carvalho Nogueira, 37 anos, tem a aventura mensal de sobreviver com um salário mínimo. A novidade que ela recebeu às vésperas do Dia do Trabalho é que o valor deve subir de R$ 954 para R$ 1.002 (um aumento de menos de 1%). De acordo com ela, não há jeito de guardar dinheiro recebendo apenas um salário mínimo. “Às vezes, tenho que pegar empréstimo com bancos ou com pessoas conhecidas”, lamenta. Benedita explica que muitas vezes prefere pedir ajuda aos conhecidos porque nestes casos não há o aparecimento de juros na hora da devolução do dinheiro. Em relação às despesas que tem com a família, a trabalhadora explica que com o salário não é possível pagar nem a prestação de sua casa. “Até uma pessoa que ainda ganha R$ 2 mil e paga aluguel passa por dificuldades”, explica ela. O aumento não mudará o aperto diário.

De acordo com o professor de economia da Universidade de Brasília (Unb) e especialista em administração pública, Roberto Piscitelli, o salário “ideal” para suprir uma família padrão – um casal e dois filhos – , seria o calculado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), e corresponde ao valor de RS 3.706,44, em março. A fórmula atual utilizada para o cálculo do salário mínimo leva em conta o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano anterior e o Produto Interno Bruto (PIB), de dois anos atrás.

Segundo o especialista, com o aumento do salário mínimo previsto para 2019, o dinheiro vai para o consumo de imediato e retornará, em parte, sob forma de tributos. “São 45 milhões de pessoas diretamente beneficiadas, além dos que se situam um pouco acima desse limite”.

O projeto que prevê o aumento do mínimo chegou ao Congresso Nacional o Projeto de Lei das Diretrizes Orçamentárias (PLDO) para o ano de 2019. De acordo com o Banco Central e com o PLDO, o governo federal está em déficit desde o ano de 2014. De acordo com a Constituição, o Projeto tem até o dia 17 de julho para ser aprovado. Caso contrário, o Congresso Nacional não poderá entrar em recesso parlamentar, isto é, interromper temporariamente as atividades legislativas.

De acordo com  o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2010, quando o salário mínimo era R$ 510, aproximadamente 21 milhões de pessoas, economicamente ativas, viviam com renda média salarial inferior ou igual a um salário mínimo.

Na prática,   salário mínimo atual não é o suficiente para viver bem e mesmo com a mudança. De acordo com as pesquisas do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) o salário mínimo necessário em 2018 deveria ser de R$ 3.706,44.

Receitas de sobrevivência

O balconista Marcos Antônio Gomes, 37, que trabalha em uma farmácia, afirma que o segredo para não aumentar suas dívidas está no empréstimo com pessoas próximas, pois assim não haverá a cobrança dos juros. “Se pegar empréstimo com o banco eu não vou conseguir pagar nunca”. Marcos trabalha como balconista e mora sozinho em Taguatinga. Em relação ao salário mínimo que recebe, ele explica que não há condições de manter uma organização com suas finanças, tendo em vista que é muito pouco. “Assim que eu ganho já gasto tudo, não tem como guardar, eu ganho e já fico devendo.” Para o trabalhador, uma renda ideal para suprir todas as suas necessidades, considerando que não vive com mais ninguém no local onde mora, seria em torno de no mínimo R$ 3 mil.    

O balconista recorre a empréstimo

A auxiliar administrativa Laisla Alves mora  com a mãe, que também trabalha, e mais duas pessoas. Ela diz que é uma pessoa bastante economista e separa uma quantia para cada coisa e com isso, costuma comprar somente o necessário. De acordo com ela, o salário mínimo é muito pouco pra quem tem uma família. “No mínimo R$ 100 seriam necessários para cada dia do mês”.

Eduardo Reis trabalha como gerente de contas. Ele se organiza mensalmente para ajudar nas despesas de casa e arcar com seus compromissos pessoais, mas diz que não há como viver tranquilamente com apenas um salário mínimo, diante disso, ele afirma que por dia seria necessário uma quantia de R$ 150.

Ednilson Lopes tem, 36, e atualmente é um vendedor autônomo, mas por dois anos viveu recebendo um salário mínimo. Ele diz que sempre procurava priorizar as coisas mais importantes e por receber pouco comprava parcelado, que era uma alternativa para se manter, ainda mais diante dos preços abusivos. Ele afirma que viver não é a palavra certa para quem ganha um salário mínimo mas sim sobreviver. “É impossível viver tranquilamente com apenas um salário mínimo”.  Para ele, geralmente uma família de três a quatro pessoas precisa de R$200 por dia para de manter.

Agnalvo dos Santos tem 29 anos e trabalha como operador de máquinas. Ele mora com cinco pessoas, e na sua casa três pessoas trabalham atualmente. “Eu faço as compras para casa, arco com algumas contas de água, luz e cartão de crédito e no final não sobra muita coisa”. Ele diz que é muito difícil viver com um salário mínimo, e sempre é necessário recorrer a outros caminhos, no caso dele, ele usa o cartão de crédito que ajuda com algumas despesas. Para Agnalvo, como em Brasília o custo de vida é mais alto ele diz que o mínimo de um salário seria de R$ 3 mil por mês.

A atendente de pastelaria diz que precisaria o dobro para viver

A atendente de pastelaria Adriana Camargo, 35, tenta equilibrar as contas  dois filhos e à espera do terceiro. Para ela, o aumento do salário mínimo é muito pouco significativo e não irá trazer mudanças na sua renda familiar. Para a atendente, a falta de dinheiro no final do mês acontece de forma habitual, visto que ela precisa pagar o aluguel e complementar os gastos com a alimentação. Adriana acredita que é necessário no mínimo R$ 2 mil por mês para sanar os gastos e os da família.

Com dois filhos, um de 12 e outro de 14 anos, Aline Muniz, 30, é auxiliar de seviços gerais. Ela que não considera o aumento do salário mínimo algo realmente significante, afirma que “tudo” em questão de serviços, produtos e principalmente a alimentação tem aumentado ao longo do tempo. “Sempre acabo apertada ou endividada”, comenta Aline sobre não conseguir fechar as contas ao final do mês.

Por Nathalia Carvalho, Paula Beatriz e Ana Paula Teixeira

Com colaboração de João Paulo, Luiz Fernando, Gabriel Ferraz, Beatriz Souza e Aline Lopes

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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