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30 anos do show que nunca acabou do Legião Urbana, em Brasília

Nesta segunda (18), faz exatamente 30 anos que aconteceu o último Show do Legião Urbana em Brasília. O espetáculo que ficou marcado pela violência, consumo de drogas e bebidas alcoólicas ainda é lembrado com tristeza pelos brasilienses. O show nunca chegou a terminar. A noite resultou em 50 mil ingressos vendidos, 500 seguranças, 400 feridos, 70 pessoas detidas, 64 ônibus depredados, U$ 60.000 em prejuízo para consertos estádio, 58 minutos de show e oito músicas tocadas.

8 de junho de 1988. Estádio Mané Garrincha, Brasília (DF). A banda Legião Urbana voltava a tocar na cidade após um ano, seis meses e três dias depois de terem tocado pela última vez na Sala Villa Lobos do Teatro Nacional.

Henrique Martins Santos, na época com 18 anos e morador da 108 Sul, lembra que horas antes do show, se surpreendeu ao ver Renato Russo, Renato Rocha, Dado-Villa Lobos e Marcelo Bonfá no comércio da quadra ao lado. “Estávamos na Pizzaria Dom Bosco (107 Sul) e a turma da Legião também estava por lá. Um amigo de Paracatu-MG, que estava conosco quase desmaiou quando os viu a seu lado”.

Mesmo em período de festas juninas, e o Distrito Federal com uma população bem menor, 50 mil pessoas foram ao Estádio Mané Garrincha para assistirem o show. Tinha também fãs de outros estados, que queriam cantar “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica” e outros hits. Era o caso de Ana Paula Andrade, que veio de Unaí (MG), com uma turma para assistirem o show. “Eu me lembro da grande confusão que foi o show. Confusão do lado de fora e depois, já dentro do estádio, tivemos que pular o fosso”, relembra.

Multidão pula Fosso / Foto cedida por Ana Carolina Bussacos, Beatriz Leal e Jania Bárbara

Do lado de fora do estádio, já se percebia que o clima não estava tão favorável. Falta de organização por parte dos produtores e de policiamento preparado para esse tipo evento. As filas eram tão grandes que tiveram a ideia de liberar a entrada para todos.

O show começou com duas horas de atraso. Ao som de “Que País É Esse?”, Legião Urbana subia ao palco e levou a plateia ao delírio. Era a realização de um sonho para todos. Um sonho que duraria apenas 58 minutos de show e oito músicas tocadas.

O clima esquentava enquanto Renato provocava ora multidão, ora a segurança do show:

“Agora, solta ele! Solta ele! Solta! Tu leva microfone na cabeça, meu irmão. Solta ele! Não vem ficar com raiva não. Que história é essa de mão na cara?”

“Da próxima vez a gente vai acender a luz. A gente vai embora. Porque segurança têm suficiente para dar porrada em todo mundo. Entendeu? Só por causa disso a gente vai pular as três próximas músicas. Nós já ganhamos muito dinheiro. Estamos aqui porque nós trabalhamos e vencemos. Vocês estão aí fudidos”.

Dia Seguinte
Na manhã do dia seguinte, a família Manfredini olhou para a pichação que estava localizada no posto de gasolina perto de sua residência. “Legião Não Voltem Nunca Mais”. Essa foi a frase que Renato Russo poderia ler depois de um 19 de junho com violência, desespero e frustração. Em próprias composições, o vocalista deixa nítido Brasília como “cidade do coração”, mesmo que tenha nascido no Rio de Janeiro.

“Havia pessoas debaixo do prédio gritando para o meu irmão e eu atendia telefonemas com ameaças”, relembra Cármen Manfredini, irmã de Renato Russo. Por motivos de segurança, ao som do interfone que não parava de tocar, Renato permaneceu em casa, onde apenas os íntimos eram permitidos entrar. Logo, saiu para o aeroporto pela garagem do prédio, dando ré no carro.

Através do Jornal Nacional, o amigo de Renato Russo e líder da Plebe Rude, Philippe Seabra soube de todas as informações e afirma que houve uma grande irresponsabilidade do líder da banda. Segundo o Philippe, parecia que Renato Russo desafiava a todos e ao longo do show, perdeu o apoio dos fãs e colocou em risco a própria segurança.

Devido ao trauma na cidade, o cantor demorou seis meses para voltar à capital, eram os parentes que iam visitá-lo no Rio de Janeiro. De acordo com os radialistas Marcos Pinheiro, Lelo Nirvana e Tenisson Ottoni, as rádios locais não pararam de tocar as músicas da Legião, mas Carmen contraria e ainda acrescenta: “Os fãs começaram a queimar os vinis ou não ouviam mais”.

Reaproximação?

Segundo Carmen Manfredini, foi cogitado um show em Goiânia pelo artista em 1989, que serviria como teste para analisar a reação do público depois do desastre. O evento não aconteceu pela situação de saúde do irmão. Mesmo com compromissos na gravadora, ele visitava a família e a cidade que amava.

No mesmo ano, após descobrir o HIV, Renato mudou as letras. As músicas deixaram todo o discurso político que o grupo construiu, apesar dele continuar colocando seus sentimentos e abordar o cotidiano de milhares de brasileiros que viviam em uma era conturbada. “Todos queriam o ouvir e por isso, tinha tanta liberdade de expor a opinião. Ele ainda era o ‘salvador’ de quem o admirava, apesar de não ter estudado música, as mensagens das letras foram o grande legado e inspiração para filmes”, revela a irmã de Renato.

Legado

Muito mais que amar as pessoas como se não houvesse amanhã, os fãs de Legião Urbana amam a banda como se não houvesse amanhã. A obsessão, muitas vezes difícil de explicar, pode se manifestar na coleção de CDs, camisetas e outros artigos relacionados a banda e por uma devoção incondicional ao grupo.

O comprador Kleber Marcelo, 44, é um fã que diz se inspirar com mensagem que a Legião Urbana passa através de suas canções e que Renato Russo transmitia isso de maneira sublime. “Não temos mais compositores que falem com os jovens desde problemas rotineiros até assuntos como, política, suicídio, amor, da maneira poética que ele fazia”. Para Kleber a devoção à banda não termina no simples fato de ouvir cada som, ele possui uma enorme coleção, representada por não só todos os CDs, LPs, mas também por jornais e revistas desde o ano de 1986.

Ao mesmo tempo em que alguns amantes da Legião colecionam diversos itens, o vocalista do grupo também guardava recordações de seus fãs. “Meu irmão recebia muitas cartas e desenhos, ele guardava tudo em um baú deste tamanho”, é o que fala Carmen Manfredini, estendendo seus braços de ponta a ponta.

Apesar do enorme carinho de todos admiradores, o fatídico show no Mané Garrincha 30 anos atrás, viria a afetar negativamente essa relação saudável. Vânia Ribeiro, funcionária pública de 48 anos, esteve no show e não tem boas lembranças do evento. “Logo na entrada quase fui pisoteada, o tumulto era muito grande e tudo foi muito sufocante”.

Depois de todo episódio, após a banda ir embora ela diz ter se indignado ainda mais. “Paguei pela pista para ficar mais perto deles, quando começou a confusão o Renato ficou dando lição de moral falando sobre sermos burgueses”. Por fim, mesmo com o acontecido, Vânia diz que tudo aquilo marcou sua juventude. “Tive que pular o fosso do estádio, mas a raiva foi só momentânea, tenho muitas lembranças boas ouvindo Legião Urbana”.

Confira matéria na íntegra em O SHOW QUE NUNCA ACABOU

Por Gabriel Alves, João Pedro Ramos, Luiz Eduardo Certain e Saulo Branquinho

Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira