O câncer de mama deve atingir 78.610 mulheres por ano no Brasil entre 2026 e 2028, segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA). É o tipo de câncer mais frequente entre as brasileiras depois dos tumores de pele não melanoma e permanece como a principal causa de morte por câncer na população feminina do país, devido ao diagnóstico já em estado avançado. A conscientização sobre a prevenção e o combate à doença é o tema da campanha Outubro Rosa, junto ao câncer de colo do útero, adicionado à iniciativa mais recentemente.
A Sociedade Brasilieira de Mastologia (SBM) e o INCA estimam que cerca de 40% dos diagnósticos no país ocorrem em fase avançada (estádios III e IV ou localmente avançados/metastáticos).
A mamografia é o principal exame para o rastreamento dos tumores de mama: é por meio dela que alterações ainda muito pequenas, antes de provocarem sintomas ou serem percebidas pelo toque, podem ser identificadas e encaminhadas para investigação. Dependendo das características da paciente e do resultado inicial, exames complementares, como ultrassonografia e ressonância magnética podem ser associadas para ampliar a avaliação.
“A mamografia é o único exame que comprovadamente reduz a mortalidade pelo câncer de mama em larga escala. É o principal método de rastreamento, com alta sensibilidade e especificidade”, afirma o Dr. Gustavo Souza, radiologista e coordenador de Radiologia do Grupo Santa, incluindo o Hospital Santa Lúcia e os Centros Radiológicos de Brasília (CRB) e do Gama (CRG).
Avaliação detalhada pela mamografia digital
A evolução da mamografia convencional para a tecnologia digital trouxe ganhos importantes para a aquisição, o processamento e a análise das imagens. No mamógrafo digital, os raios X atravessam a mama e são captados por um detector eletrônico, que transforma as informações em imagens de alta resolução, com possibilidades como ampliação, ajuste de contraste e variação de brilho, para examinar regiões específicas com maior detalhamento.
As imagens também podem ser armazenadas eletronicamente e comparadas com estudos anteriores, facilitando a identificação de mudanças ocorridas ao longo do tempo. Outra vantagem está na possibilidade de otimizar os protocolos de aquisição de acordo com as características da mama, preservando a qualidade necessária para o diagnóstico e mantendo o controle da exposição à radiação.
Segundo o Dr. Gustavo, uma das principais contribuições do exame é revelar microcalcificações, que consistem em depósitos minúsculos de cálcio. “Muitas vezes, essas alterações são os primeiros sinais de lesões pré-cancerígenas ou de tumores em fase extremamente inicial”, explica. “Quando o câncer é descoberto nessa fase, as chances de cura ultrapassam os 95%, e os tratamentos costumam ser muito menos invasivos”, acrescenta o radiologista.
A compressão durante a mamografia pode provocar desconforto, mas é uma etapa importante para distribuir o tecido, reduzir sobreposições, manter a mama imóvel e produzir imagens adequadas. E, dessa forma, encontrar lesões que nem a paciente nem o médico conseguiriam perceber pelo toque.
O Dr. Gustavo observa ainda que informações falsas de que a mamografia provocaria câncer ou espalharia um tumor podem levar mulheres a adiar o cuidado. No entanto, a dose de radiação empregada é controlada, realizada com indicação e protocolos adequados.
O Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomendam mamografia anual para mulheres a partir dos 40 anos.
Rastreamento e investigação
Compreender a diferença entre rastreamento e investigação diagnóstica ajuda a evitar dúvidas sobre a finalidade de cada exame. O rastreamento é realizado periodicamente em pessoas que não apresentam sinais ou sintomas, com o objetivo de identificar alterações suspeitas antes que a doença se manifeste. A investigação começa quando há um sintoma, um achado no exame clínico ou uma alteração observada em uma imagem anterior.
Para o Dr. Cristiano Resende, oncologista do Hospital Santa Lúcia, o acompanhamento médico adapta as recomendações para cada mulher. “Quando falamos de rastreamento, estamos falando de mulheres assintomáticas. Na população geral, a recomendação das sociedades médicas é realizar a mamografia anualmente a partir dos 40 anos. Entretanto, pacientes com histórico familiar muito importante, mutações associadas ao câncer ou outros fatores de risco podem precisar começar a investigação mais cedo, de forma individualizada”, explica.
Sinais para investigar
De maneira geral, um câncer surge quando determinadas células passam a se multiplicar de maneira desorganizada, adquirem capacidade de invadir tecidos e, em alguns casos, disseminam-se para outras partes do organismo. Esse processo pode estar relacionado a uma combinação de fatores genéticos, hormonais, ambientais e comportamentais.
No caso da mama, o sinal mais conhecido é o aparecimento de um nódulo endurecido. Mudança na textura ou no formato da pele, retração do mamilo, vermelhidão persistente, aumento de volume, secreção com sangue e pele com aspecto semelhante ao de uma casca de laranja também exigem avaliação. Ínguas nas axilas, no pescoço ou próximas à clavícula também podem fazer parte do quadro.
O Dr. Cristiano explica que o autoexame e a capacidade de a mulher reconhecer o próprio corpo são importantes para perceber alterações, mas é fundamental que as pacientes sigam as recomendações para o rastreamento, para descobrir eventuais alterações o quanto antes. “Quando diagnosticado em uma fase muito precoce, quando a chance de cura do câncer de mama é maior, e isso depende dos exames de imagem”, ressalta.
Mama densa e próteses de silicone
Um dos fatores associados ao aumento do risco de desenvolvimento do câncer de mama, a densidade mamária trata-se de uma característica identificada na mamografia, determinada pela proporção entre tecido fibroglandular e gordura. Quanto maior a quantidade do primeiro, mais densa é a imagem. Na mamografia, tanto o tecido denso quanto determinadas lesões aparecem em tons claros, semelhança que pode dificultar a visualização de alterações pequenas.
Nesses casos, o médico pode considerar exames complementares, especialmente quando a densidade se soma a outros fatores de risco ou quando existe um achado que não foi completamente esclarecido. A decisão não é automática e pode variar para cada paciente. Características anatômicas, a idade, os antecedentes familiares, mutações genéticas, biópsias prévias e outros fatores precisam ser analisados em conjunto. “O acompanhamento passa a ser mais personalizado para reduzir o risco de uma alteração importante permanecer oculta”, acrescenta o oncologista.
Já as mulheres com implantes mamários devem manter o acompanhamento preventivo de acordo com a idade e os fatores individuais de risco. A presença das próteses, no entanto, exige técnicas de posicionamento específicas e informação prévia à equipe que realizará o exame. “Pacientes com próteses devem fazer os exames preventivos com a mesma periodicidade das demais mulheres, considerando os mesmos fatores de risco”, orienta o Dr. Gustavo Souza.
Papel da ultrassonografia e da ressonância magnética
Entre os exames complementares para investigação do câncer de mama, a ultrassonografia utiliza ondas sonoras, sem radiação ionizante, para produzir imagens do tecido mamário. É frequentemente empregada para avaliar nódulos e diferenciar estruturas sólidas de formações preenchidas por líquido, como os cistos. A ressonância magnética das mamas, por sua vez, oferece imagens de alta sensibilidade e pode revelar lesões que não ficaram evidentes na mamografia ou na ultrassonografia.
“A ressonância magnética das mamas é um estudo importante e complementar à mamografia, pois aumenta a sensibilidade para lesões nodulares às vezes não vistas na ultrassonografia ou na mamografia. Avalia também outros tecidos das regiões axilares, a pele e o gradil costal”, detalha o Dr. Gustavo.
A escolha dos métodos complementares depende do motivo da investigação, mas estes não substituem a mamografia. “O exame padrão-ouro, com o melhor nível de evidência para o rastreamento e também para pacientes com achados palpáveis, continua sendo a mamografia”, complementa o Dr. Cristiano.
Tecnologia depende de uma equipe integrada
Equipamentos modernos ampliam a capacidade de investigação, mas a qualidade do diagnóstico depende também da integração entre estrutura física, protocolos, profissionais treinados e especialistas capazes de correlacionar imagens, sintomas e histórico clínico. “O diagnóstico precoce do câncer de mama depende de todo um time assistencial, incluindo mastologistas, radiologistas, enfermeiros e técnicos, associado a uma boa infraestrutura”, afirma o Dr. Gustavo.
No Centro Radiológico de Brasília, no Centro Radiológico do Gama e nas unidades do Hospital Santa Lúcia, a jornada pode envolver diferentes áreas conforme a necessidade da paciente. Quando há diagnóstico de câncer, oncologistas, cirurgiões, patologistas e outros profissionais participam da definição da conduta. A escolha do tratamento depende de diversos fatores: subtipo do tumor, tamanho da lesão, comprometimento ou não dos linfonodos, presença de metástases, idade, estado hormonal e condições gerais de saúde.
Com um corpo clínico experiente e especializado, o Hospital Santa Lúcia oferece a jornada completa de cuidado para o câncer de mama, desde as consultas periódicas aos exames, como a mamografia, até o tratamento, com intervenções cirúrgicas e as demais indicações, de acordo com cada caso.
“O câncer de mama não é uma única doença. Podemos ter pacientes na mesma sala com o mesmo diagnóstico geral, mas que receberão recomendações diferentes porque existem vários tipos e subtipos, com comportamentos e características próprios”, explica o Dr. Cristiano. Entre as possibilidades terapêuticas estão cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, imunoterapia e tratamentos direcionados a alvos moleculares. Essas estratégias podem ser empregadas isoladamente ou em combinação, em diferentes momentos da jornada.
Nas fases iniciais, a cirurgia costuma integrar o tratamento com intenção curativa. A evolução da oncologia mamária ampliou as opções disponíveis e tornou o tratamento mais personalizado. Ainda assim, o estágio no momento do diagnóstico continua sendo determinante para as chances de cura e para a intensidade das intervenções necessárias. “O câncer de mama é uma doença curável e que essa chance de cura está diretamente relacionada ao momento em que o diagnóstico acontece, muitas vezes com menos tratamento”, conclui o Dr. Cristiano.
“O câncer não sabe que Outubro é Rosa”
Na campanha “O câncer não sabe que Outubro é Rosa”, promovida pelo Hospital Santa Lúcia neste ano, quatro mulheres compartilham suas trajetórias de enfrentamento e superação da doença, todas diagnosticadas em meses distintos, entre 2017 e 2026. O objetivo é conscientizar a população de que o cuidado com a saúde e a realização de exames preventivos não podem ficar restritos a um único mês.
Um dos depoimentos é da professora Simone Araújo, de 48 anos. Carregando o luto imensurável de ter perdido a única filha e a sogra para o câncer, ela foi paralisada pelo pânico ao sentir um nódulo na mama, o que a fez adiar a busca médica, até obter o diagnóstico em fevereiro de 2022. O que inicialmente pareceu ser uma sentença, funcionou como um despertar para a vida. Inspirada pela coragem que a filha havia demonstrado na mesma situação e movida pelo dever de cuidar de seus pais, Simone encontrou uma força vital. Hoje, ela alerta outras mulheres para que não deixem o medo atrasar o diagnóstico.
Outra trajetória é a da publicitária Celma Mendes, de 48 anos, que recebeu o diagnóstico de câncer de mama em março de 2021, após um nódulo que acompanhava havia algum tempo apresentar uma mudança significativa, passando de 8 milímetros para 5 centímetros em um ano. Durante o tratamento, aprendeu a respeitar os limites do próprio corpo e a priorizar o autocuidado, encontrando na fé e no apoio de pessoas próximas forças para atravessar a quimioterapia. Transformada pela experiência, hoje dedica parte do seu tempo a acolher e orientar mulheres que enfrentam o pós-câncer, compartilhando informações sobre os desafios dessa etapa e reforçando a importância do acompanhamento médico e dos exames de rotina.
Fotos das quatro mulheres – Belisária (Baby), Celma, Luciana e Simone – estampam a campanha, sob o olhar da fotógrafa Tainá Frota, assim como um mini documentário com depoimentos que revelam as experiências de cada uma. Os conteúdos estão à mostra dentro das unidades hospitalares e centros de radiologia, além das redes sociais, do site do Grupo Santa e mídias de rua. Outras ações também estão no radar do Hospital Santa Lúcia para a campanha, a exemplo de eventos e materiais informativos.
Belisária (Baby), Celma, Luciana e Simone (Foto: Tainá Frota/Grupo Santa)
Para a Dra. Patrícia Schorn, médica oncologista do Hospital Santa Lúcia e especialista em câncer da mulher, a essência da campanha reside na urgência de manter a vigilância contínua, já que a doença não obedece a calendários. O foco permanente deve estar na educação e na quebra do tabu que afasta as pacientes dos consultórios.
“Não existe uma sazonalidade para o diagnóstico de câncer. Lembrar da campanha de prevenção em outubro é muito importante, mas devemos lembrar que todos os dias da nossa vida são dias para buscar saúde”, alerta. “Precisamos focar na disseminação da informação e na desmistificação do pavor do diagnóstico. Quanto mais precoce o fizermos, maior é a chance de cura. Transformar todos os meses do ano em rosa é fundamental, porque estamos diante de uma doença muito frequente, mas que pode ser diagnosticada precocemente e superada.”




