Dormir fora de casa já é difícil. Em uma UTI, onde a dor e o medo acompanham muitos pacientes, o descanso pode se tornar um desafio ainda maior. No Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), unidade administrada pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), um gesto simples tem transformado essa realidade. A partir de colchões reaproveitados, uma colaboradora passou a produzir travesseiros artesanais que aliviam a dor, estabilizam o corpo e levam mais conforto durante e após a internação.
A primeira noite na UTI foi difícil para Lourdes de Jesus da Anunciação, de 80 anos. A dor após a cirurgia para retirada de um tumor acima do cerebelo dificultava o descanso. O alívio veio por meio de um cuidado inesperado. “Tive dificuldade de dormir porque estava com dor. Foi então que essa santa da Andria se ofereceu para fazer um travesseiro para mim. Quando coloquei a cabeça, ficou excelente. Agora, fecho os olhos e durmo rápido”, relata.
A “santa” citada por Lourdes é a terapeuta ocupacional Andria Soares Callegaro, integrante da equipe da UTI de Neurocirurgia do Hospital de Base do Distrito Federal. Há três anos atuando na unidade, Andria dedica parte da sua rotina à produção voluntária de travesseiros estabilizadores confeccionados a partir de colchões do tipo caixa de ovo. Os itens ajudam a acomodar melhor o corpo, reduzem o risco de lesões por pressão e oferecem mais conforto aos pacientes em um momento de grande fragilidade durante a internação.
Inspirada em travesseiros de viagem, a profissional desenvolveu um modelo próprio, adaptado às necessidades de cada paciente. “O coxim, como é chamado esse apoio, ajuda na estabilidade e no alinhamento da cabeça com a coluna cervical, reduzindo os pontos de pressão na parte posterior da cabeça e protegendo áreas sensíveis no pós-operatório. Isso diminui o desconforto e promove mais aconchego”, explica.
Cada colchão reaproveitado rende, em média, dez travesseiros. Após o corte no formato adequado, o material é envolvido com ataduras, o que garante firmeza e permite a higienização sempre que necessário. Os travesseiros são de uso individual e acompanham o paciente após a alta hospitalar, contribuindo também para a recuperação em casa.
O cuidado vai além dos travesseiros. O reaproveitamento do material é integral. Com as sobras dos colchões, Andria confecciona outros dispositivos de apoio, como itens para contenção confortável de pacientes agitados, suportes para elevação de punhos e protetores auriculares, utilizados para reduzir ruídos e garantir mais conforto aos pacientes que precisam permanecer deitados de lado.
Para a terapeuta ocupacional, o principal incentivo está no impacto direto na vida de quem passa pela UTI. “Cada paciente traz uma situação diferente, algo que torna o cuidado especial. Participar da recuperação e ver essas pessoas voltando bem para casa é o que me faz sentir realizada”, afirma.
A produção depende da disponibilidade de colchões e da demanda, mas Andria confecciona, em média, seis travesseiros por semana. “A ideia é que todos os pacientes possam sair daqui levando um pouco mais de conforto para seguir a recuperação”, destaca.
Parcerias que ampliam o cuidado
A iniciativa só se torna possível graças ao apoio de diferentes frentes dentro do Hospital de Base. Os colchões utilizados na confecção são doados pelo Serviço Auxiliar de Voluntários (SAV), uma das quatro entidades de voluntariado que atuam na unidade.
Segundo a presidente do SAV, Vandelícia Dias, a parceria está alinhada à missão do grupo. “Se é para o paciente, o SAV está presente para ajudar no que for possível”, pontua.
No dia a dia da UTI, o apoio das equipes de enfermagem também é essencial. “Eles têm um papel fundamental na adequação postural dos pacientes e estão sempre presentes, inclusive nos fins de semana. Sou imensamente grata por essa parceria, que demonstra comprometimento, sensibilidade e trabalho em equipe”, conclui Andria.






