O III Fórum Mulher no Esporte, promovido pelo Comitê Olímpico do Brasil, foi realizado nesta terça-feira (17), em Brasília. O evento ampliou o debate sobre a presença feminina no esporte ao reunir atletas, gestoras, pesquisadoras, profissionais da saúde e representantes deste mercado.
Em sua terceira edição, o fórum discute a participação das mulheres nas competições e a ocupação delas em espaços de liderança, gestão, comunicação e tomada de decisão no cenário esportivo. Além da necessidade de atenção à saúde física e mental das atletas de alto rendimento.
O hotel Royal Tulip foi o palco desta edição, que contou com a presença de nomes importantes para a história do esporte brasileiro em diversos âmbitos ,como Ana Paula Oliveira, jornalista esportiva, Annamarie Phelps, atleta olímpica e o técnico da seleção feminina José Roberto. A programação foi separada por paineis temáticos e ao final contou com a entrega do prêmio Melânia Luz.
Da promessa à prática
Os debates foram abertos por Yane Marques, medalhista olímpica e vice-presidente do COB, Alicia Morea, presidente da Comissão de Mulheres no Esporte da Panam Sports e Annamarie Phelps, presidente do Secretariado do IWG e atleta olímpica.
A conversa enfatizou que, para avançar na luta diária pelo reconhecimento feminino, é preciso que não apenas o Comitê Olímpico do Brasil, mas todas as instituições esportivas, reforcem o protagonismo feminino e a parceria de gênero, abrindo espaço para mulheres em posições majoritariamente ocupadas por homens.
“É um desafio que transformei em oportunidade. Não sou vice-presidente do COB por ser mulher, e sim pelo meu compromisso, esforço e coragem. Precisamos nos inspirar umas nas outras”, explicou Yane Marques.
Em pauta, as palestrantes reafirmaram o compromisso estabelecido pela Lei Geral do Esporte em 2023, que determina que ao menos 30% dos cargos de direção em entidades esportivas devem ser ocupados por mulheres. Yane Marques comemorou o avanço ao dizer que, no COB, quase metade da comissão é composta por vozes femininas atuando em diferentes campos.
“Eu sou o resultado da cota. Por muito tempo, fui a única mulher entre tantos homens. A cota é oportunidade e, se não fosse por ela, eu não estaria onde estou hoje”, disse Alicia Morea.
Por trás das políticas de incentivo, há mulheres que trabalham diariamente para que as ações se concretizem e os avanços se mantenham.
Avanços na inclusão
O painel sobre igualdade e inclusão colocou em debate o protagonismo feminino no esporte para além da atuação como atleta. Ele reuniu Claudia Romano, Presidente do Instituto Yduqs, do SEMERJ e do Pacto pelo Esporte, Olga Bagatini, Jornalista e especialista na ONU Mulheres, e Ana Paula Oliveira, Jornalista esportiva e ex-árbitra de futebol,
O tema trouxe um mapeamento sobre como a equidade de gênero vem sendo incluída em instituições que promovem o esporte. As palestrantes apontaram os avanços, desafios e experiências em setores diferentes que exigem uma organização mais igualitária. Claudia frisou a importância da troca de boas práticas e da consciência de entidades esportivas para formalizar ações mais efetivas de inclusão.
Ana Paula relatou sua vontade de continuar motivando as futuras gerações de profissionais do esporte a romperem os paradigmas impostos historicamente por uma sociedade machista.”É legal ser a pioneira, mas é mais legal ainda não ser a última”, afirmou.

Cuidar também é competir
No terceiro painel, Rosangela Faroni, médica ginecologista e obstetra do COB, Laís Nunes, atleta olímpica de Wrestling, membra da CACOB e da Comissão Mulher no Esporte do COB, e José Roberto Guimarães, treinador multicampeão da Seleção Brasileira Feminina de vôlei, foram convidados para falar sobre uma realidade em que atletas mães ainda dependem de cuidados específicos para sustentar sua permanência no alto rendimento.
Embora a gestação de atletas em alto rendimento e seu retorno às atividades ainda seja um tabu, vem sendo um tema muito discutido internamente por profissionais da saúde, comissão técnica e pelas próprias atletas.
Lais abriu o debate afirmando que a visibilidade é o primeiro passo para que a atleta entenda ser possível viver a maternidade sem abandonar a carreira. Ela ressalta que o maior desafio é a reconexão emocional e física consigo mesma, fortalecendo seu o papel de mãe e atleta.“Eu sou mãe, sou mulher, sou atleta e estou no caminho pra me reencontrar como uma só”.
Do ponto de vista médico, Rosangela defendeu um suporte que junta saúde física, mental e uma infraestrutura para facilitar o retorno da atleta após o parto. Ela destaca a necessidade de uma retomada progressiva e personalizada, com equipes que compreendam as necessidades individuais de cada mulher.
“Não há como falar de equidade sem falar de maternidade. Essas mulheres não deveriam ter que escolher entre ser atleta e ser mãe, é possível conciliar os dois. Hoje, as atletas que são mães têm o poder de inspirar aquelas que pensam que precisam escolher”, explicou a médica.
Ao falar sobre suas experiências com as atletas mães, Zé Roberto disse que, acima da readaptação tática, são necessárias sensibilidade, apoio e preparação para acolher esse momento tão especial junto à atleta. O treinador apontou o calendário esportivo rígido como um dos principais obstáculos na recuperação pós-gestação.
“Foi um momento único para a atleta e para nós, funcionamos como uma equipe multidisciplinar. Comecei a entender que não eram só as técnicas das quatro linhas que importavam, mas também as necessidades das minhas atletas” , comentou o técnico.
Estereótipo da figura feminina na mídia
No último painel, Adriana Samuel, medalhista olímpica de vôlei e empreendedora social, Marcela Zaiden, diretora de planejamento executivo e gestão de elenco esporte da globo, Jéssica Silva, gerente sênior de Originals e lifestyle na Adidas Brasil, e Vanessa Melo Viana, superintendente nacional na Caixa Econômica Federal. Elas abordaram a forma como a mídia ainda recorre a estereótipos e o impacto dessa exposição na construção da imagem feminina.
“É de propósito que eu preciso comunicar algo que vai além de estereótipos. Afinal, é muito difícil ir contra um estereótipo que a mídia propõe”, disse Vanessa Viana.
Marcela defendeu que a mídia vai além da produção de conteúdo e age como ferramenta social, ao ampliar as oportunidades para mulheres no esporte. Ela citou os Jogos Olímpicos de Paris como exemplo do crescimento da visibilidade feminina e reforçou a importância de ter mais mulheres pautando o esporte feminino.
A conversa também tratou da dificuldade das mulheres em conquistar visibilidade por mérito individual, sem estarem atreladas a referências externas ou serem sexualizadas. Adriana expôs sua visão de ex-atleta acerca dos temas discutidos, com exemplos reais do preconceito enraizado no esporte feminino desde o início, e afirmou que, mesmo com avanços, ainda é necessária a consciência da imprensa em geral.
Em uma visão de marca, Jessica levantou a reflexão sobre a “necessidade de ter a intenção de mudar”. Para ela, as marcas precisam agir com propósito e entender que seus produtos podem moldar a performance da atleta e a forma como ela é vista em quadra e nas telas.
“A imagem impacta na performance, a forma como a mulher se sente é importante. No final do dia, o que importa é que ela se sinta confortável”, afirmou a gerente sênior da Adidas.

Prêmio Melânia Luz
Por fim, foi entregue o prêmio Melânia Luz, que homenageia mulheres que marcaram o esporte nacional por suas ações a favor do reconhecimento feminino.
Nesta edição de 2026, Maria Luciene Resende, ex-presidente da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) e uma das principais referências da gestão esportiva brasileira, recebeu, pelas mãos da primeira-dama Janja, o título.
Por Maju Rocha
Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira



