A obesidade no Brasil continua avançando e já se consolidou como um importante desafio de saúde pública. Dados do Atlas Mundial da Obesidade 2025 indicam que 68 % da população adulta está acima do peso e cerca de 31 % já vive com obesidade. Segundo estimativas da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), milhões de brasileiros convivem com a doença, que vai muito além da estética e afeta diretamente a saúde física e mental.
Para a endocrinologista do Hospital Anchieta, Ana Paula Rocha, é fundamental encarar a obesidade como o que ela realmente é: uma doença crônica complexa, reconhecida pelas principais diretrizes médicas, incluindo a Organização Mundial da Saúde e entidades médicas nacionais. “Trata-se de um quadro que envolve alterações hormonais, metabólicas e inflamatórias, além de fatores genéticos, comportamentais e ambientais. Reconhecer isso ajuda a reduzir o estigma e garante que o paciente tenha acesso a um cuidado adequado e baseado em ciência”, afirma.
Do corpo à mente: impactos da obesidade
O excesso de peso não afeta apenas o corpo, mas também a saúde mental. Existe uma relação bidirecional: ter peso acima do ideal pode aumentar o risco de depressão, ansiedade e compulsão alimentar, enquanto o sofrimento emocional também pode contribuir para o ganho de peso. O preconceito relacionado ao corpo agrava ainda mais o cenário e pode afetar a autoestima e a qualidade de vida, tornando essencial um cuidado que leve em conta tanto a saúde física quanto a emocional.
Embora não exista uma cura definitiva, a obesidade pode ser controlada de forma eficaz. Mesmo quando há perda de peso, mecanismos fisiológicos aumentam a sensação de fome e reduzem o gasto energético do organismo, favorecendo o reganho de peso. “Isso é uma resposta natural do corpo e não significa falta de disciplina. Por isso, o acompanhamento deve ser contínuo e o foco precisa estar em mudanças sustentáveis, adaptadas à rotina e à realidade de cada paciente”, destaca a médica.
Dietas extremamente restritivas raramente trazem resultados duradouros e podem até prejudicar a relação com a alimentação. Abordagens individualizadas costumam apresentar melhores resultados a longo prazo.
Canetas emagrecedoras
Entre as opções disponíveis estão fármacos como o Ozempic e o Mounjaro, que atuam em hormônios relacionados ao controle da fome e do metabolismo. Eles imitam ou potencializam a ação de substâncias produzidas naturalmente pelo intestino, como o GLP-1 e o GIP, responsáveis por aumentar a sensação de saciedade, reduzir o apetite e melhorar o controle glicêmico.
Quando corretamente indicados e acompanhados por um especialista, esses medicamentos podem se tornar aliados importantes no tratamento da obesidade, especialmente em pacientes com maior risco cardiometabólico. Ainda assim, seu uso deve estar sempre associado a mudanças de hábitos e a um acompanhamento contínuo, que garanta segurança e resultados sustentáveis a longo prazo.
Controle e prevenção ao longo da vida
A obesidade infantil também preocupa. Nas últimas décadas, o excesso de peso entre crianças tem aumentado, impulsionado pelo consumo de alimentos ultraprocessados, pela redução da atividade física, pelo aumento do tempo de tela e por fatores do ambiente familiar e social. “Os hábitos se formam cedo, e é preciso atenção para prevenir problemas de saúde no futuro”, alerta Ana Paula Rocha.
Mesmo pequenas mudanças na rotina já podem trazer impactos positivos para a saúde, especialmente quando combinadas a acompanhamento profissional e a um plano de cuidado contínuo, que leve em conta tanto o corpo quanto a mente.






