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Estudantes da rede pública discutem solidão e violência simbólica a partir de clássico do teatro brasileiro

Antes mesmo de entrar no teatro, há uma conversa mediada com a turma. Não é aquecimento de elenco: é a primeira parte da programação. E quando as luzes se apagam pela última vez, ninguém vai embora. Atrizes, diretor e equipe técnica ficam para responder ao que a plateia quiser perguntar.

É assim que funcionam as dez sessões do Laboratório de Narrativas Vivas – Grandes Autores do Teatro Brasileiro, que ocupa a Sala Yara Amaral, no Sesi Taguatinga, entre 31 de agosto e 4 de setembro de 2026. A obra escolhida é “Há Vagas para Moças de Fino Trato”, de Alcione Araújo (1945-2012), na montagem dirigida por Cléber Lopes. As sessões são exclusivas para turmas de escolas públicas, e cada estudante sai com material educativo impresso sobre a peça e o autor.

O projeto volta ao mesmo teatro onde cumpriu temporada em maio de 2025. O laboratório se organizou como iniciativa educativa e passou a construir as ações em torno de três temas que atravessam o texto de Alcione Araújo e a vida de quem está assistindo: liberdade, moralidade e solidão.

A escolha cênica ajuda nesse trabalho. Nesta versão, o público não fica na plateia: senta no palco, a poucos metros das atrizes. Nalu Miranda, Carol Nemetala e Rosanna Viegas atuam no limite entre o que está escrito e o que acontece ali, naquela sessão, com aquelas pessoas olhando de perto. Para um estudante que nunca foi ao teatro, é uma estreia sem proteção nenhuma: dá para ver a respiração, o cansaço, o olhar que escapa.

O som completa o cerco. O músico e pesquisador lisboeta João Lucas assina uma sonorização em quadrifonia que reproduz os ruídos da casa e da rua, a água correndo pelo encanamento, os passos no cômodo ao lado, e acrescenta camadas simbólicas que deslocam a cena para outro lugar. O espectador não observa um apartamento: está dentro dele.

Escrita em 1974, sob a ditadura militar, “Há Vagas para Moças de Fino Trato” é a obra mais cultuada de Alcione Araújo, dramaturgo, roteirista, escritor e um dos intérpretes mais afiados do comportamento brasileiro. A peça acompanha a convivência de três mulheres e o que essa convivência vai produzindo: hierarquia, julgamento, uma violência que não se apresenta como violência porque está diluída na rotina. É exatamente aí que o texto encontra a sala de aula.

“Há Vagas Para Moças de Fino Trato foi escrita há meio século e, ainda hoje, (in)felizmente produz sentido muito similar ao seu contexto político-comportamental original. No discurso, radicalismos negligenciam o respeito e adoecem as individualidades. Comportamentos pautados por premissas, crenças e vivências são defendidos como verdades absolutas, ditos pelo prisma da violência moral. Tudo isso à luz do cotidiano, onde agressões simbólicas são naturalizadas em meio às demandas do dia a dia”, afirma o diretor Cléber Lopes.

Lopes persegue esse texto desde o início da carreira. São cinco montagens ao longo de 25 anos, uma especialização concluída em 2011 (FADM) e um mestrado defendido em 2016 (UnB). Cada remontagem incorporou as inquietações do momento em que foi feita, o que ajuda a explicar por que a peça segue produzindo sentido em salas de aula formadas por gente que nasceu três décadas depois da redemocratização.

A aposta do Laboratório é que o estudante não apenas assista, mas analise, discorde e se posicione. Por isso a mediação e o bate-papo são parte da programação, e não um apêndice: todas as dez sessões são precedidas de uma conversa preparatória antes de entrar no teatro e seguidas de debate aberto entre público e equipe do projeto, após o espetáculo.

A direção de cena é de Nei Cirqueira, que trabalha ao lado de Cléber Lopes para garantir que cada sessão continue fiel aos princípios formulados na pesquisa de mestrado do diretor.

A programação prevê recursos de acessibilidade de audiodescrição e LIBRAS em três sessões. O projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal.

Programação:

Segunda-feira, 31 de agosto — sessões às 15h e 20h.
Terça-feira, 1º de setembro — sessões às 9h30 e 15h.
Quarta-feira, 2 de setembro — sessões às 15h e 20h.
Quinta-feira, 3 de setembro — sessões às 9h30 e 15h.
Sexta-feira, 4 de setembro — sessões às 9h30 e 15h.

Todas as dez sessões são precedidas de mediação e seguidas de bate-papo entre o público e a equipe do projeto. Os estudantes recebem material educativo sobre o espetáculo.

Fotos e vídeos: https://drive.google.com/drive/folders/1rrvKtZkLZjwIG8x8YNdBtmyIHHbQHDpx?usp=sharing

Ficha Técnica
Elenco: Nalu Miranda, Carol Nemetala e Rosanna Viegas

Direção: Cléber Lopes

Direção de cena: Nei Cirqueira

Cenografia e figurino: Roustang Carrilho

Sonoplastia e música de cena: João Lucas

Coordenação de produção: Paula Jacobson

Assistente de produção: Rui Miranda

Monitora / assistente de produção: Nilza Lopes

Coordenação técnica e iluminação: Rodrigo Lelis

Montagem de luz: Davi Marcelino

Operação de luz: Jefferson Landim

Coordenação de acessibilidade: Fernando Rodrigues

Intérpretes de Libras: Celma da Silva Souza e Marcelo Rocha

Mediação educativa: Todo Público

Fotografia: Diego Bresani e Marcos Venicius

Design: Henrique Marinelli

Social media: Lunares Ayla

Assessoria de comunicação: Camila Maxi

Gestão administrativa: C1 Arte e Entretenimento

Assistente administrativo: Gleidson Lopes

Auxiliar de escritório: Vagner Lopes

Apoio: Kacus Martins / Espaço Cultural H2O

SERVIÇO
Laboratório de Narrativas Vivas – Grandes Autores do Teatro Brasileiro

Espetáculo: Há Vagas para Moças de Fino TratoLocal: Sala Yara Amaral – Sesi TaguatingaPeríodo: 31 de agosto a 4 de setembro de 2026Sessões exclusivas para turmas de escolas públicasClassificação indicativa: 14 anos
Informações: @C1produtora