Leia mais

Mais lidas

Útimas notícias

Quimioterapia pode afetar saúde da gengiva e reduzir fluxo salivar em mulheres com câncer de mama 

Estudos brasileiros publicados em 2026 mostram alterações durante o tratamento e reforçam a importância do acompanhamento odontológico antes e durante a quimioterapia 

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 1.410 novos casos de câncer de mama feminina no Distrito Federal em 2026. Em todo o Brasil, são estimados 78.610 novos casos por ano para o triênio 2026 a 2028. Em meio às ações do Outubro Rosa, o alerta para a prevenção, o diagnóstico e o tratamento da doença também chama atenção para um aspecto que pode ficar em segundo plano durante essa jornada: a saúde bucal.

Durante a quimioterapia, alterações na saliva e nas condições da gengiva podem favorecer problemas que afetam o conforto e a qualidade de vida da paciente. Para a cirurgiã-dentista Dra. Luisa Casado, o acompanhamento odontológico deve começar, sempre que possível, antes do início do tratamento. “A saúde da boca não deve ser deixada em segundo plano durante o tratamento do câncer de mama. A quimioterapia pode provocar alterações que interferem na saliva e na saúde das gengivas. Por isso, quanto mais cedo identificarmos problemas como inflamação gengival, cáries ou infecções, maior a possibilidade de trabalhar preventivamente e acompanhar essas alterações ao longo do tratamento”, explica.

Quimioterapia pode dificultar o controle da saúde da gengiva

Um estudo brasileiro publicado em setembro de 2026 no periódico International Journal of Dental Hygiene avaliou especificamente as condições periodontais de mulheres com câncer de mama submetidas à quimioterapia.

A pesquisa acompanhou 40 pacientes, sendo 20 mulheres com câncer de mama e gengivite e 20 pacientes sem câncer, também com gengivite. Todas receberam raspagem supragengival e foram acompanhadas durante 24 semanas.

Os dois grupos apresentaram redução de placa bacteriana e sangramento à sondagem após o tratamento odontológico. No entanto, entre as pacientes com câncer de mama, os pesquisadores observaram que a quimioterapia dificultou o controle da inflamação periodontal ao longo do acompanhamento. Também foi identificada redução do fluxo salivar nas avaliações realizadas nas semanas 6, 12 e 24.

Para Dra. Luisa, os resultados reforçam a importância de o dentista acompanhar a paciente durante o tratamento, e não apenas quando surge alguma queixa.

“A prevenção é muito importante nesse período. Se a paciente já inicia a quimioterapia com uma inflamação gengival, por exemplo, precisamos acompanhar de perto para evitar que essa condição se agrave. O objetivo é trabalhar em conjunto com a equipe médica e manter a saúde bucal o mais equilibrada possível durante o tratamento”, afirma.

Um segundo estudo brasileiro, publicado em 2026 no Journal of Clinical and Experimental Dentistry, acompanhou 68 mulheres com câncer de mama submetidas ao protocolo de quimioterapia AC-T, que combina doxorrubicina, ciclofosfamida e taxanos.

As participantes foram avaliadas ao longo dos ciclos de tratamento. A partir do terceiro ciclo, os pesquisadores observaram redução do fluxo salivar e piora da condição periodontal, além de alterações na sensibilidade gustativa. Embora a pesquisa também tenha investigado alterações do paladar, os resultados relacionados à saliva e à saúde periodontal reforçam a importância do acompanhamento odontológico durante a quimioterapia.

Segundo Dra. Luisa, a redução da saliva merece atenção porque ela exerce funções importantes na proteção da cavidade oral. “Quando o fluxo salivar diminui, a paciente pode sentir mais desconforto e ficar mais vulnerável a alterações na boca. Além de ficar mais suscetível à desmineralização e/ou cáries, pela baixa quantidade de saliva circulante. Por isso, não devemos esperar aparecer dor ou uma lesão para procurar o dentista. O acompanhamento permite identificar essas mudanças e orientar os cuidados de acordo com cada situação”, alerta.

Segundo a especialista, sempre que as condições clínicas permitirem, a avaliação odontológica deve ocorrer antes do início do tratamento oncológico. Nesse momento, o dentista pode verificar a presença de cáries, doença periodontal, infecções, dentes com problemas e outras condições que possam precisar de atenção.

A ideia não é realizar procedimentos de forma indiscriminada, mas estabelecer, em conjunto com a equipe médica, quais cuidados são necessários e qual é o melhor momento para realizá-los.

“Antes de iniciar a quimioterapia, fazemos uma avaliação geral da saúde bucal. Se houver algum foco de infecção ou inflamação, por exemplo, podemos discutir com a equipe oncológica a melhor conduta. Durante o tratamento, o acompanhamento passa a ter um caráter ainda mais preventivo, pois a quimioterapia causa uma baixa da imunidade e pode causar, por exemplo, mucosite oral, nesse caso o laser é super indicado, tornando o processo menos incômodo e potencializando a cicatrização ”, explica a dentista.

Entre as principais recomendações estão:

  • Fazer uma avaliação odontológica antes do início da quimioterapia, quando possível;
  • Manter uma rotina adequada de higiene bucal;
  • Utilizar escova macia e evitar movimentos agressivos durante a escovação;
  • Manter o controle da placa bacteriana;
  • Realizar acompanhamento odontológico durante o tratamento;
  • Informar ao dentista todos os medicamentos utilizados;
  • Comunicar à equipe de saúde qualquer alteração na boca, como feridas, sangramento, dor, inchaço ou ressecamento intenso;
  • Não realizar procedimentos odontológicos invasivos sem conversar previamente com a equipe responsável pelo tratamento oncológico. 

“O dentista precisa estar em constante contato com a equipe médica oncológica. A paciente em tratamento para câncer de mama com supressão hormonal, tende a fazer uma osteopenia, que exige o uso preventivo de medicação que pode inviabilizar tratamentos invasivos relacionados ao osso, como por exemplo implantes, cirurgias esqueléticas e pode, até, interferir na movimentação ortodôntica, por causa do atrito dente/osso. Então, procedimentos como implantes e cirurgias ósseas podem ser perigosos e causar necrose, por isso a interação médico e dentista é imprescindível”, explica ela. 

Referências científicas

VILLAFUERTE, Kelly R. V.; CANDIDO DOS REIS, Francisco J.; CARRARA, Hélio H. A.; MARTINEZ, Cristhiam H.; PALIOTO, Daniela B. Integrating Supragingival Scaling and Biofilm Management Into Breast Cancer Patients’ Care. International Journal of Dental Hygiene, publicação online em 9 de setembro de 2026. DOI: 10.1111/idh.70156. PMID: 42717305. PubMed, estudo completo

MALTA, Cássia Emanuella Nóbrega et al. Risk factors for dysgeusia during chemotherapy in breast cancer women: A cohort STROBE-guided. Journal of Clinical and Experimental Dentistry, 2026;18(2). DOI: 10.4317/jced.62680. PMID: 41890678. PubMed, estudo completo

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil, Síntese de resultados e comentários. O INCA estima 1.410 novos casos de câncer de mama feminina no Distrito Federal em 2026. INCA, estimativa para o Distrito Federal