Infarto e AVC costumam ser associados ao avanço da idade, mas as alterações que favorecem esses eventos podem começar décadas antes. A aterosclerose, caracterizada pela formação de placas nas artérias, pode ter início ainda na juventude e evoluir progressivamente ao longo dos anos.
Dados apresentados no Congresso Europeu de Cardiologia (ESC 2026), realizado em agosto, reforçam esse alerta. A pesquisa avaliou 16.808 adultos, entre 18 e 70 anos, sem doença cardiovascular aterosclerótica conhecida e identificou a presença silenciosa da aterosclerose em cerca de um a cada 13 participantes de 18 a 29 anos. Entre aqueles de 60 a 70 anos, a proporção chegou a nove em cada dez.
Para o coordenador da Cardiologia dos Hospitais Anchieta, Edson D’Ávila, os resultados mostram que a prevenção não deve começar apenas quando surgem sintomas. O controle dos principais fatores de risco desde cedo pode reduzir a exposição das artérias a condições que favorecem o desenvolvimento da doença ao longo dos anos.
“Isso não significa que todos os jovens devam realizar exames de imagem. O mais importante é identificar e controlar fatores como pressão alta, colesterol elevado, diabetes, obesidade, sedentarismo e tabagismo. Quanto mais cedo agirmos, menor tende a ser o impacto acumulado sobre as artérias”, avalia.
Um processo que pode levar décadas
A aterosclerose ocorre de forma progressiva, com o acúmulo de placas nas paredes das artérias. Com o passar dos anos, esse processo pode comprometer a circulação do sangue e aumentar o risco de complicações cardiovasculares, como infarto e AVC.
Os resultados apresentados no congresso mostraram aterosclerose silenciosa em 57,1% dos participantes avaliados, com aumento da ocorrência conforme a idade. Para o cardiologista, o dado chama atenção justamente por mostrar que alterações nas artérias podem estar presentes muito antes das primeiras manifestações.
Por isso, pressão arterial, colesterol e glicemia são indicadores importantes para avaliar condições que favorecem o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. O histórico familiar e hábitos como tabagismo, sedentarismo e alimentação inadequada também devem ser considerados na avaliação individual.
Prevenção antes dos sintomas
No Setembro Vermelho, mês dedicado à conscientização sobre as doenças cardiovasculares, a orientação é incorporar os cuidados com o coração à rotina. Alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, não fumar e acompanhamento médico ajudam a reduzir fatores de risco que podem agir silenciosamente durante anos.
Para Edson D’Ávila, conhecer indicadores básicos de saúde também ajuda a transformar a prevenção em uma atitude cotidiana, em vez de procurar cuidados somente diante de sintomas ou de uma emergência cardiovascular.
“Conheça seus números, como pressão, colesterol e glicemia, mantenha hábitos saudáveis e não espere o infarto ou o AVC para cuidar do coração. A aterosclerose pode se desenvolver silenciosamente durante décadas, e a prevenção precoce pode mudar essa trajetória”, assinala.






