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Endividamento recorde expõe fragilidades na gestão financeira das empresas brasileiras

O Brasil alcançou o maior número de empresas inadimplentes já registrado. São 8,9 milhões de CNPJs com dívidas em atraso, quase o dobro do observado há uma década, quando o país contabilizava 5,1 milhões. O volume total chega a R$ 213 bilhões, com forte concentração nas micro e pequenas empresas, responsáveis por 8,5 milhões dos registros e R$ 185 bilhões desse montante. Em média, cada empresa negativada acumula sete contas em atraso.

Para Paulo Pedroso, sócio-diretor de corporate e crédito da Aliá Partners, o avanço ocorre em um ambiente de crédito mais caro e seletivo. A taxa básica de juros em patamares elevados encarece o capital de giro e pressiona margens, especialmente em setores mais dependentes do consumo, como o de serviços, que concentra mais da metade dos registros de inadimplência. Ao mesmo tempo, instituições financeiras restringem a concessão de crédito, o que limita alternativas para empresas com maior necessidade de liquidez.

Segundo o especialista, o cenário revela um desequilíbrio recorrente na estrutura financeira das empresas. “O crédito não é, por si só, o problema. O problema está no custo, no prazo e na ausência de planejamento. Muitas empresas operam com linhas incompatíveis com o seu ciclo de receita e acabam comprometendo a própria margem”, afirma.

Paulo ainda destaca, que a deterioração do caixa costuma estar associada ao uso inadequado do crédito, sobretudo em operações de curto prazo utilizadas para sustentar atividades de ciclo mais longo. “Quando o empresário trata capital de giro como receita, ele cria uma distorção que mascara a real situação financeira e acelera o endividamento”, diz.

O especialista pontua que o tempo de reação influencia diretamente a capacidade de recuperação. “Empresas que buscam renegociação de forma antecipada conseguem condições mais favoráveis. Quando a dívida já está elevada e concentrada em linhas caras, o poder de negociação diminui”, afirma.

Entre os caminhos observados, a reestruturação do passivo tem ganhado espaço. A substituição de dívidas mais onerosas por linhas com melhores condições, como operações com garantia, e o alongamento de prazos aparecem como alternativas para recompor o fluxo de caixa. “Uma empresa endividada não precisa necessariamente de menos crédito, mas de um crédito melhor estruturado, com custo e prazo alinhados à sua operação”, pontua.

Apesar da pressão, o ambiente também abre espaço para movimentos estratégicos. Empresas com maior organização financeira conseguem acessar crédito em condições mais competitivas e, em alguns casos, ampliar participação de mercado. “Em um cenário de fragilidade generalizada, quem tem estrutura encontra oportunidades que não estariam disponíveis em momentos de maior estabilidade”, afirma Pedroso.

@aliapartners