A saúde mental tem deixado de ser um assunto restrito aos consultórios e conquistado espaço dentro das empresas. Em meio ao avanço de casos de ansiedade, depressão e outros transtornos mentais, organizações passaram a investir em atendimento psicológico, espaços de escuta e ações voltadas ao bem-estar dos funcionários. A mudança ocorre também em um momento de maior atenção aos riscos psicossociais no ambiente de trabalho.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo, reflexo de um cenário em que uma em cada oito pessoas convive com algum transtorno mental. Esse impacto é evidente no mercado corporativo: em 2019, 15% dos adultos em idade ativa apresentavam alguma condição de saúde mental. Para mudar essa realidade, a entidade recomenda que as empresas adotem medidas práticas para ampliar o acesso ao suporte psicológico, integrando o cuidado à rotina dos colaboradores.
Em Goiânia, a Associação Goiana das Empresas de Material para Construções (Agemaco), sede administrativa da Rede da Construção, oferece desde 2024 atendimento psicológico aos 14 funcionários diretos. Cada colaborador tem direito a duas sessões gratuitas por mês, realizadas durante o horário do expediente. Quem deseja continuar com um acompanhamento extra tem acesso a consultas adicionais pelo valor social de R$ 100.
Implementado antes mesmo de as novas diretrizes sobre riscos psicossociais da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), do Ministério do Trabalho e Emprego, ganharem destaque, o programa de apoio psicológico da associação surgiu da observação do cotidiano corporativo. A tomada de decisão foi impulsionada pelo surgimento de desafios internos, como taxa de rotatividade, absenteísmo, atritos interpessoais e desafios no controle emocional das equipes.
O gerente administrativo Paulo Xavier relata que a identificação desses fatores, incluindo conflitos e desgaste emocional, revelou novas demandas no ambiente de trabalho. “Como gestor, percebi que as pessoas estão com necessidades e desafios atuais diferentes de períodos anteriores e que diversos comportamentos não se resolvem com os feedbacks e processos corporativos rotineiros”, explica.
Foi diante desse cenário que a Agemaco procurou a Reference Clinic, responsável pela condução do acompanhamento psicológico oferecido aos funcionários. A psicóloga Jackeline Sousa Pires, proprietária e responsável técnica da clínica, explica que a experiência da associação segue uma lógica importante para que ações de saúde mental não fiquem restritas a campanhas ou iniciativas pontuais.
“O primeiro passo é criar um cronograma contínuo de ações em saúde mental, começando por um diagnóstico do cenário da empresa. É preciso compreender a demanda, definir a frequência e o formato dos atendimentos – individuais ou em grupo, presenciais ou on-line -, além de identificar quais estratégias são mais adequadas à rotina e ao perfil dos colaboradores”, orienta.
Na Agemaco, a proposta foi colocada em prática com atendimento psicológico individual. “O projeto foi simples e eficaz, pois disponibilizou duas terapias gratuitas por mês e caso o colaborador queira estender o tratamento é cobrado um valor social pela clínica”, detalha Paulo Xavier.
Terapia muda rotina e relações
Intervenções adequadas no ambiente profissional não apenas acolhem o sofrimento psíquico, mas são fundamentais para que esses indivíduos permaneçam e participem ativamente do trabalho. A partir daí, o benefício passou a ser percebido também por quem está do outro lado do atendimento. Nathália de Faria, analista administrativa da associação, conta que sentiu mudanças na rotina depois de começar a terapia.
“Na prática, percebi uma mudança muito positiva no ambiente de trabalho. A terapia trouxe mais leveza para as atividades do dia a dia, contribuindo para uma maior estabilidade emocional e mais resiliência para enfrentar e resolver os desafios”, relata.
A possibilidade de realizar as sessões durante o expediente também facilitou a adesão ao benefício. “Assim consigo encaixar a terapia na minha rotina sem precisar renunciar a outros compromissos. Isso tornou o benefício mais acessível e possível de manter no dia a dia”, observa.
Para Paulo, os efeitos também foram percebidos na convivência entre as equipes. “Colaboradores mais conscientes dos seus desafios profissionais e familiares, mais interação e colaboração entre equipes, ambiente mais leve, descontraído e produtivo”, avalia.
A experiência, porém, não envolve apenas mudanças percebidas depois do atendimento. Conforme Nathália, também houve uma transformação na forma como os funcionários passaram a encarar o assunto dentro da empresa.
“Muitas vezes, existia certo receio de expor o que estávamos sentindo ou de sermos julgados por isso e até de uma futura demissão”, relembra.
Com a abertura para o tema, ela percebeu mais liberdade para falar sobre saúde mental e buscar ajuda. “Sinto que a terapia ajudou a quebrar alguns tabus e trouxe mais leveza e empatia para as relações no trabalho”, descreve.
É justamente nesse ponto que a psicóloga Jackeline chama atenção para a forma como o benefício é oferecido. De acordo com ela, o funcionário precisa ter acesso ao atendimento sem precisar expor previamente uma questão pessoal à empresa.
“Esse acesso direto é importante porque evita que o colaborador precise primeiro expor uma questão pessoal a alguém da própria empresa para somente depois receber ajuda. Quando o cuidado psicológico é oferecido como um benefício disponível a todos, a adesão deixa de individualizar ou estigmatizar quem procura apoio”, esclarece.
A profissional também explica que a preservação do sigilo é parte essencial desse processo. “À empresa contratante são fornecidas apenas as informações administrativas estritamente necessárias para gestão do benefício e prestação de contas, como utilização do serviço, datas e horários dos atendimentos, sem revelar o conteúdo tratado nas sessões”, ressalta.
Cuidado que não termina em setembro
Na Agemaco, o atendimento psicológico integra outras iniciativas voltadas aos funcionários. A associação também mantém um programa de mentoria para colaboradores com mais de um ano de empresa, voltado ao desenvolvimento profissional e à construção de planos de carreira.
Além disso, a empresa também passou a investir em momentos de integração entre as equipes. “Juntamente com esse trabalho terapêutico intensificamos o capricho no endomarketing com comemorações em datas sazonais como pais, mães, aniversariantes, aniversariantes de empresa, fizemos até uma sexta de cinema com direito a pipoca e tudo mais”, lembra Paulo.
No último 18 de setembro, a associação promoveu uma palestra com Glênio Forte, diretor de Marketing da Rede da Construção, sobre o tema ‘Uma breve reflexão sobre a vida e a importância das relações’.
Para Jackeline, iniciativas como essa ganham força quando deixam de depender apenas de campanhas específicas e passam a fazer parte da rotina das organizações.
“O Setembro Amarelo cumpre um papel fundamental de conscientização: chama a atenção da sociedade para a importância da saúde mental, para a prevenção e para a necessidade de reconhecer situações em que é preciso buscar ou oferecer ajuda”, pontua.
Ela explica que a conscientização precisa ser acompanhada por medidas permanentes. “Uma política contínua transforma essa conscientização em prática”, conclui.
Ajuda também é prevenção
Para Nathália, o benefício chegou em um momento particularmente delicado. “Eu estava passando por um momento de muita exaustão emocional, chegando praticamente ao meu limite. As terapias começaram justamente quando eu mais precisava e fizeram uma diferença muito importante para que eu pudesse seguir minha vida profissional com mais equilíbrio e cuidado com a minha saúde mental”, relata.
Ela conta que o acompanhamento também mudou a forma como passou a lidar com situações difíceis. “Hoje consigo olhar para as situações com mais calma, maturidade e resiliência”, reconhece.
A experiência reforça, para ela, a importância de buscar ajuda antes que o sofrimento se agrave. “Eu diria para não terem vergonha de pedir ajuda. Cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, mas de coragem e de amor próprio”, aconselha Nathália.
Na avaliação de Paulo Xavier, “o cuidado psicológico precisa ser profissional e constante, pois mudar e adaptar comportamentos é algo desafiador”.



